Quarta-feira

DUCHAMP, O FARSANTE




por Affonso Romano de Sant'anna


Há, pelo menos, duas maneiras de ver essa retrospectiva de Marcel Duchamp no Museu de Arte Moderna de São Paulo. A primeira é com o olhar de 1917. A segunda é com o olhar de 2008. Com o olhar de cem anos atrás ficaremos pasmos e/ou encantados que alguém tenha decretado o fim da arte transformando, paradoxalmente, qualquer objeto cotidiano em peça de museu. Com o olhar de hoje, de quem já atravessou os caminhos e descaminhos da história e da arte no século 20, exercita-se uma visão crítica que ensine a ver o ontem e questionar o agora.
Duchamp tem sido vítima de dois tipos de leitura: a primeira é uma leitura precária, superficial, repetitiva do que vem sendo dito há cem anos. Pura celebração, escrita de endosso, subserviente, intimidada diante da celebridade e da história. A rigor, é uma leitura anti-duchampiana. É´ o que se faz nos cursos de arte e nos manuais. O segundo tipo de leitura que vitimou Duchamp é a hiper interpretação. Aí situam-se grandes ensaístas, tanto Octávio Paz e sua alucinada interpretação do “Grande Vidro” ou Jean Clair que compara Marcel Duchamp a nada mais nada menos que Leonardo da Vinci.
Não seria já hora de fazemos uma revisão crítica da modernocontemporaneidade? Duchamp é peça fundamental neste processo. Contraditoriamente, o dessacralizador foi sacralizado e os que o seguem são paradoxalmente anti-duchampianos. Contudo, a melhor homenagem que se pode fazer a Duchamp é contestá-lo. Não gratuitamente, mas com argumentos e conceitos pertinentes.
O séc. 20 viveu às custas de três contribuições do sec. 19: o marxismo, a psicanálise, a arte moderna. O marxismo entrou em processo de revisão, a psicanálise está sendo reanalisada. Por que temer a revisão da arte moderna? Uma revisão, enfatizo, não com os olhos do sec. 19, mas do sec. 21.


A COISA AUSENTE

As pessoas que estão indo ver a retrospectiva de Duchamp no MAM devem estar sentindo uma certa estranheza. Além de não conseguirem conferir as obras expostas com as teorias e as expectativas que as precedem, estão indo ver uma coisa que não está lá. Existe um vazio, que se explica, porque na arte conceitual, o conceito é mais importante que a obra. Algumas obras são só o conceito. Por essa razão os objetos que lá estão, o urinol, a roda de bicicleta, o vidro pintado, não têm uma singularidade, podem ser substituídos, replicados por outros urinóis, rodas de bicicleta, etc.
Daí decorre que esse tipo de obra não é para ser “vista” mas para ser “pensada”. Portanto, insistir em “ver” tais obras não nos dará a chave do enigma. O enigma só será desvendado se pensarmos os conceitos geradores da obra. Não é à toa que, espertamente, Duchamp era contra a “arte retiniana” e fazia a apologia do ” homem cego”. Uma análise de tal arte deveria centrar-se nos conceitos que a originaram.
Mas surge, então, uma pergunta perturbadora: por que esses conceitos nunca foram examinados? Ou melhor: esses conceitos resistem a uma análise? Qual o campo para a análise da “arte conceitual”? Certamente não é a estética nem o campo artístico, até porque Duchamp ambiguamente negava a estética e a arte. Daí surge outra questão intrigante: se as teorias artísticas e estéticas não dão conta desses problemas, em que espaço eles devem ser enfrentados?
A resposta é: na área da filosofia, da linguística e da retórica. É até possível dizer que a arte conceitual é um ramo da literatura. No entanto, espantosamente, há cem anos que essas áreas ignoram as riquezas contraditórias das falácias duchampianas.
Trazendo, portanto, o problema para o campo que lhe é próprio, afirmo: Duchamp era um sofista. E os sofistas que prosperaram no sec. IV a.C. na Grécia, prosperaram também muito na modernocontemporaneidade. O sofista acredita poder demonstrar qualquer coisa com seu discurso. Pode dizer, como Zenão, que uma tartaruga corre mais que Aquiles ou, como Duchamp, que qualquer objeto é uma obra de arte. O sofista é um ilusionista da linguagem. Enfrentar o enigma duchampiano é desconstruir o ilusionismo retórico que ele criou. Como alertava Bachelard, há que enfrentar os “obstáculos verbais”. E Lacan, analisando o conto “A carta roubada” de Poe, dizia que a primeira façanha do ilusionista é nos transformar em personagem de sua ficção. Deste modo, os que estão indo ao MAM ver as obras de Duchamp correm o risco de simplesmente caírem numa armadilha verbal.
No meu próximo livro “O enigma vazio”, detenho-me pormenorizadamente sobre as idéias e falácias do discurso duchampiano, aprofundando questões levantadas em “Desconstruir Duchamp”. Aqui, rapidamente, lembro duas delas. A primeira falácia é sua definição de “arte”. Numa entrevista à BBC, em 1968, disse que “etimologicamente” a palavra “arte” significa “agir” e não “fazer”. Equívoco. Em sânscrito, no indo-europeu, no grego, no latim, por exemplo, arte está ligada a “fazer”, à “técnica”. Mas nosso Duchamp acha que pode inventar etimologias. Se dissesse que estava inventando, poderíamos dizer como os lusos- ” tem piada”. Mas, não disse. Se bastasse “agir” para ser artista qualquer pessoa andando na rua seria artista e os animais grandes virtuoses.

ARGUMENTAÇÃO EM DECLIVE

A retórica do frasista Duchamp pode ser desconstruída quando surpreendemos nela o que os lógicos chamam de “argumentação em declive”. Douglas Valton diz que ” o declive escorregadio é um tipo de argumento que começa quando somos levados a reconhecer que uma diferença entre duas coisas não é significativa. Depois disto, pode ser difícil negar que a mesma diferença, entre a segunda e a terceira, também não é significativa. Quando esse tipo de argumento começa, pode ser tarde demais para detê-lo: entramos no declive escorregadio”.
É isto que ocorreu com o urinol ("Fountain") apresentado como obra de arte, ou seja, quando o marchand Arensberg, a mando de Duchamp, argumentou junto à direção da exposição, em 1917, que se alguém mandasse cocô de cavalo como obra de arte, teriam que aceitar. Fazia sentido. Deu no que deu. Esta é uma tática sofista que consiste em encadear afirmações, ilógicas, inverossímeis, absurdas. Se o ouvinte não pára para conferir cada unidade e a des/unidade do conjunto, se verá prisioneiro num encadeamento sem poder achar a saída.
Duchamp exercitou o declive escorregadio quando explicando o “Grande vidro” (-essa obra não terminada e sobre a qual há anotações que os próprios biógrafos chamam de confusas e inexplicáveis), disse que aquela obra é um “atraso”. Mas como “atraso” é algo que ele não sabia como definir pois tem “diferentes sentidos”, aceitou a “totalidade deles”; e assim desembocamos naquilo que ele jubilosamente chama de “indecisão”. E a “indecisão” (ou relativismo) de seu discurso sofista é de tal ordem que ele explica que em vez de “atraso”, poderia dizer que o quadro é um “poema em prosa” ou uma “escarradeira de prata”. Então a obra é tudo e nada, e, sobretudo, uma coisa que não se sabe o que é­. Assim entende-se porque para ele “tão logo começamos a por nossos pensamento em palavras e frases sai tudo errado”.

Por que até hoje ninguém se dispôs a analisar tolices de certas frases duchampianas, que passam por sabedoria, como essa: “Pode alguém fazer obras que não sejam obras de ‘ arte’”? Claro que pode, e Duchamp é um exemplo. Por que não se analisa isto: ” a idéia de julgamento deveria desaparecer”. Ou esse outro disparate: “a palavra não tem a menor possibilidade de expressar alguma coisa”.
Em Duchamp há um problema central: o problema da linguagem. E não sairemos da aporia que ele criou enquanto não decifrarmos a linguagem do problema. Dentro da estratégia da indecisão, os recursos estilísticos usados por ele eram a homonia( palavras semelhantes com significados diferentes), a paronomásia (grafia e pronúncia semelhante e sentido diverso) e anfibologia (termos ambíguos, obscuros). Gostava de trocadilhos e chegou a colecionar centenas deles . Com isto construiu armadilhas verbais e conceituais que iludiram cautos e incautos. Desmontar essas armadilhas é desconstruir um mito. Como mentiroso paradigmático, ele ilustra o clássico “paradoxo do mentiroso”, pois quando o mentiroso diz que está falando a verdade, está mentindo ou não? O fato é que seus solipsismos levaram várias gerações a uma paralisia do pensamento, ao enigma vazio. Ele é o cultor do oxímoro paralisante, o avesso do oxímoro dialético este sim, produtor de conhecimento.
Ter dito ” sou totalmente um pseudo” serve para absolvê-lo? Ter dito “cada palavra que lhes digo é estúpida e falsa” o exime de responsabilidade? E o que dizer desta frase dramática escamoteada por seu adoradores: “Este século é um dos mais baixos na história da arte”. Não é ele responsável por isto?
Individuo sedutor, inteligência brilhante, ilusionista ardiloso, acabou por fazer com que outros tomassem como sendo lei universal, o que era seu modo de ver e de ser. Não se lhe pode negar o direito de ter feito o que fez, ter dito o que disse ou viver a vida que viveu. Isto tinha certo sentido em 1917. O que não se pode é mitificá-lo e deixar de analisar objetivamente sua obra e pensamentos ficando na deliquescente imitação ou fiel adoração.
No final da vida ele disse “os anos mudam e não poderia mais ser um iconoclasta”. Entrou então, ao lado de Calder, para o Instituto Nacional de Letras e Artes dos Estados Unidos. Assim o apóstata voltou ao seio da igreja. É´ como se alguém tivesse a vida inteira garantido aos seus seguidores que não existe céu nem inferno, e , no entanto, ao morrer, se despedisse cinicamente de sua grei dizendo, desculpem-me, me equivoquei, mas estou indo para o céu. Desculpem-me se infernizei a vida de vocês.

FONTE: http://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/08/25/que-fazer-de-marcel-duchamp-por-affonso-romano-de-santanna/

Sexta-feira

A CURVA DA ESTRADA



A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te ouço a passada
existir como eu existo.
A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.

[Fernando Pessoa]

Terça-feira

RUMOS DA ARTE CONTEMPORÂNEA

O novo na arte não tem que ser sempre um escândalo ou uma ruptura; pode ser – e na maioria das vezes é – o resultado de sutil exploração e aprofundamento temático e estilístico.
Não obstante, a exigência do novo explícito tornou-se um fator decisivo na produção e na avaliação da arte contemporânea. Trata-se de um fenômeno decorrente dos movimentos de vanguarda que, como o próprio nome está dizendo, apresentavam-se como a última palavra em arte, a expressão da própria vida moderna, sendo o mais considerado 'passadismo', velharia, coisa superada.
Essas idéias foram introduzidas, na verdade, pelo Futurismo e, especialmente, por Marinetti, que pregava a necessidade de a arte expressar a vida contemporânea, a cidade industrial, enfim, o futuro. Fundou-se assim o preconceito do novo, a busca em arte do novo pelo novo, responsável em grande parte pelo rumo que tomou a arte do século passado e a autofagia que a caracterizou.

[Ferreira Gullar]

Quinta-feira

A Poesia como recriação do homem

o poeta e filósofo Ângelo Monteiro




"Somente durante breve período foram esses deuses realidade. Os gregos atingiram seu apogeu enquanto homens: igualavam-se aos deuses. Enfrentavam-nos abertamente e faziam-nos manifestarem-se não através de teólogos e sacerdotes, mas através de poetas e filósofos. Viam-se no espelho dos deuses".

(Karl Jaspers)



Se a Poesia contar com alguma missão pedagógica essa não poderá ser outra senão a de neutralizar sempre todas as ameaças e todos os perigos que visam comprometer, de maneira definitiva, a imagem que o homem quer fazer de si mesmo: que diminuída até o ridículo ou à infâmia, como na comédia ou na farsa, ou ampliada até à grandeza, como na épica e na tragédia, jamais se deixará reduzir à medida banal em que uma concepção pedestre da vida pretende encerrá-la. Buscando suprir a ausência dos objetos - pois a Poesia, diferentemente das demais artes, lida com a forma (e esta imaginada) e não com a matéria das coisas, - faz do mito sua substância necessária e da palavra, depurada dos seus diversos usos e trocas de moeda corrente, o veículo dessa substância.


Compreendendo o mito em seu sentido originário, como espaço configurador da existência humana, em sua ligação com aquilo que a transcende, é que poderemos captar o caráter paradigmático não só dos personagens mas da própria trama dos relatos em que eles se inscreveram; e, mais ainda, tratando-se da poesia lírica, dos valores afins de certas atmosferas espirituais em tempos históricos os mais diversos. Na poesia lírica, com efeito, o Poeta, livre de qualquer contexto espacial ou temporal que o delimite, sempre estaria dionisiacamente pulsionado por inquietações de natureza mais filosófica do que na épica, por exemplo. De modo absoluto o Poeta nunca faz da narrativa o fulcro principal de sua criação. Romeu e Julieta, Hamlet, Iago e Macbeth tornaram-se criações de Shakespeare independentemente de serem personagens cantados muito antes dele em relatos que precederam a sua existência de grande poeta e dramaturgo. O sopro dramático que o poeta insuflou em tais personagens é o que os tornou shakespereanos. Qualquer imbecil pode contar uma história sem carecer de concurso de um poeta; porque a um poeta,. se de fato o é, só podem interessar situações paradigmáticas que reflitam a condição humana. Ao poeta caberá, apenas, expressar artisticamente, na grandeza ou na baixeza, em ponto exagerado, a mímesis dessa condição.


A palavra, que vive da ausência dos seus objetos, ao contrário do vampiro que vive do sangue de suas vítimas, empresta seu próprio sangue à ausência das coisas, criando outra presença com poder de concorrer com as outras presenças da realidade. É nesse sentido que Oscar Wilde teve razão ao dizer que a natureza é que imita a arte, e não a arte que imita a natureza. E a presença da arte, e notadamente da poesia, se faz sentir de tal maneira na vida da cultura que muitas vezes confundimos os papéis da vida com o papel paralelo desempenhado pela arte. Os grandes feitos - encarnados nos grandes amores bem como nos grandes ódios, - são por isso todos artísticos: vida nenhuma, história nenhuma é povoada ou saturada de tal poesia.


A natureza - e Baudelaire o reconheceu muito bem em um dos seus magníficos ensaios - nada sabe do amor e da beleza: na cultura é que se criam o amor e a beleza. Pois que são o amor e a beleza - perguntamos - senão criações da Poesia? O amor não era conhecido nas cavernas: que o diga o mito da caverna de Platão. E beleza nenhuma jamais se refletiu nas paredes de uma caverna; dela quando muito houve o reflexo incidindo em suas sombras. A beleza é uma simetria criada pelo artista. E o amor não é criação do homem comum: mas criação, num alto estágio da cultura, da ética amancebada com a estética.


O objeto da Poesia é edificar - valha o sentido moral ou religioso - o homem comum; e isto é o mesmo que dizer: criar outra imagem do homem. Os homens comuns necessitam, portanto, do Poeta para serem transformados, sob pena de não conseguirem sobreviver sem a colaboração recíproca do amor e da beleza. A função específica da Poesia é a recriação permanente da imagem do homem. Foi talvez por ausência da Poesia que Narciso se afogou na própria imagem, segundo o mito grego, como foi pela presença da Poesia que o Patinho Feio se reencontrou, segundo o extraordinário mito de Andersen. Nenhum homem aceita sua própria imagem: pela simples razão de que se o caminho de todas as coisas é o devir - como tão bem nos mostrou Heráclito - o caminho do homem será sempre o do dever-ser, como nos patenteou Sócrates em sua pregação do "conhece-te a ti mesmo". Quem quer que procure conhecer a sim mesmo - ainda que seja a coisa mais difícil nos conhecermos - jamais se contentará com a sua própria imagem: mas há de descobrir necessariamente uma via de aperfeiçoá-la. E a perfeição do homem não consiste noutra coisa senão em se superar, como anunciou Nietzsche, o poeta-filósofo da superação humana.


Quando dizemos que toda Poesia é arquetípica - mesmo naquelas formas que se recusam ao arquétipo por temor do estereótipo, como se ambos tivessem o mesmo significado - levamos em conta, principalmente, o caráter mimético nela reconhecido tanto por Platão como por Aristóteles. O caráter mimético da arte, sobretudo na Poesia, é inseparável do seu conteúdo arquetipal, tão ressaltado por Platão, que expressamente exigia da mímesis um resultado pedagógico para a formação humana. Aristóteles, por sua vez, ao proclamar a catarse como forma de reconstituição de equilíbrio do homem - após a experiência do pathos da tragédia e a identificação necessária com o herói trágico - enfatizava um dos aspectos mais fundamentais da mímesis: o seu poder de recriação da imagem do homem.


Como existe uma diferença básica entre o domínio da verdade e o da verossimilhança - como de resto não se podem confundir o plano da arte e o da realidade - nunca será demais lembrar a sentença definitiva de Aristóteles: "A poesia é mais filosófica e de caráter mais elevado que a história, porque a poesia permanece no universal, e a história estuda apenas o particular". O fato da poesia ser mais filosófica nos chama a atenção para uma de suas qualidades mais peculiares; a de ser o estuário em que vão desaguar todas as interrogações que permeiam o horizonte humano. É justamente sua qualidade filosófica que a distingue de qualquer relato considerado em si mesmo, e por isso tomamos como paradigma o relato histórico. A Poesia não poderia nunca se circunscrever ao anedótico, ao circunstancial, ao factual, já que sua essência reside não no particular mas no universal; naquilo que no homem é permanente, misterioso e enigmático como realidade fundante das demais realidades que o rodeiam.


Há hoje uma tendência muito em voga que consiste em colocar a psicologia da arte a reboque da psicologia do artista, e em reduzir aquela a um mero apêndice desta; a preocupação com os aspectos pessoais, mesmo os mais mundanos e desnecessários do artista, principalmente se falso artista, quase não reserva nenhum lugar para a obra de arte enquanto tal. Esse tipo de leitura da arte, a partir das idiossincrasias, debilidades ou neuroses do artista, obscurece o papel primacial da arte, que é a recriação do homem, por se conformar apenas com o que de móvel, instável e quebradiço, há no homem comum destituído de paradigmas. E é sobre esse homem sem paradigmas que se pretende construir a poesia de nosso tempo e, mais gravemente, a partir de tal poesia, tal história Jung, ao distinguir a personalidade do artista do processo criador tomado em si mesmo, presta um enorme serviço à cultura e, conseqüentemente, ao homem como um todo, ao asseverar: "Todo criador é uma dualidade ou uma sínteses de qualidades paradoxais. Por um lado, ele é uma personalidade humana, e por outro um processo criador, impessoal. Enquanto homem, pode ser saudável ou doentio; sua psicologia pessoal pode e deve ser explicada de um modo pessoal. Mas enquanto artista, ele não poderá ser compreendido a não ser a partir de seu gosto criador (...) Isto, porque a arte, nele, é inata como um instinto que dele se apodera, fazendo-o seu instrumento. Em última instância, o que dele quer não é ele mesmo enquanto homem pessoal, mas a obra de arte. Enquanto pessoa tem seus humores, caprichos e metas egoístas; mas enquanto artista ele é, no mais alto sentido, "homem", e homem coletivo, portador e plasmador da alma inconsciente e ativa da humanidade. É esse o seu ofício, cuja exigência às vezes predomina a ponto de pedir-lhe o sacrifício da felicidade humana e de tudo aquilo que torna valiosa a vida do homem comum".


Como o mito está radicado na essência de toda verdadeira arte - tal o preceituavam, desde a antigüidade, Platão e Aristóteles, - Jung insiste na idéia do artista enquanto instrumento das imagens primordiais: "Por este motivo, é perfeitamente válido e legítimo que o poeta se apodere novamente de figuras mitológicas para criar as expressões de sua experiência íntima. Nada seria mais fácil do que supor que se recorra, nesse caso, a um tema tradicional. Ele cria a partir da vivência originária, cuja natureza obscura necessita das figuras mitológicas e por isso o artista busca avidamente as que lhe são afins para exprimir-se através delas. A vivência originária é carente de palavra e imagem, tal como uma visão num "espelho que não reflete". A vivência originária é um pressentimento poderoso que quer expressar-se, um turbilhão que se apodera de tudo o que se lhe oferece, imprimindo-lhe sua forma visível".


Assim como os conflitos pessoais do artista não explicam a sua arte, da mesma maneira a ciranda dos acontecimentos do cotidiano não constitui o conteúdo vital da arte: o cotidiano não passa de pano de fundo de uma experiência mais originária. É esta experiência originária que pode justificar a força que se apodera do artista, transformando-o em seu dócil instrumento, independentemente de sua vontade pessoal.


Por isso nenhuma poesia se contentará apenas com os narrados e sucedidos, mas com o fundamento das vicissitudes humanas; com a sede e a fome meta-biológicas que são insaciáveis no homem forçado a se alimentar do sensível apenas para sobreviver: quando ele o que quer é ressuscitar. Foi mais ou menos nesse sentido que Nietzsche escreveu: "Só me agrada aquilo que alguém escreveu com seu próprio sangue. Escreve com sangue, e aprenderás que o sangue é espírito".


A Poesia que vive do pedestre como seu último fim se nega como poesia. Reduzir a vida a depoimentos do cotidiano, ou fazer da poesia o veículo de tais depoimentos, é contribuir para que ambas se anulem sem possibilidade de recuperação, é concorrer para que o sangue se negue enquanto sangue para servir de alimento apenas a vampiros do instante e a negadores do ser.

A vantagem da Poesia em relação às demais artes é que ela não é apenas arte; mas inspiradora das demais artes aponta um caminho de retorno à vida pois, ao conjugar palavra e ser, proclama o nascimento das coisas e o retorno das coisas à origem comum: o Logos, que é Fogo, Luz, Liberdade. Heidegger teve a felicidade de descobrir que "a linguagem é a casa do ser; nela morando, o homem existe enquanto pertence à verdade do ser..." A palavra, portanto, não é apenas meio de comunicação mas morada do ser. E o homem é a testemunha da Palavra. Tanto isso é verdade que, pelo menos, dois ignorantes geniais, Homero e Shakespeare, - que existiam bem antes dos nossos atuais Cursos de Letras - assim o testemunham, como "pastores do ser" e, conseqüentemente, da palavra, para usar mais uma expressão heideggeriana.


Quando Heidegger fala da tagarelice, como uma dominante na atmosfera avessamente cultural do nosso tempo, se refere, naturalmente, à morte institucional da palavra; não à palavra mesma. Refere-se à morte jornalística, publicitária da palavra, não à palavra fundadora que fez Hölderlin dizer: "O que existe, os poetas o fundam".


Desconfiemos, como medida de preservação de nossa saúde psíquica, dos poetas afeitos ao culto do ramerrão cotidiano, em cujo horizonte só cabem as ordens do dia, e os editais e proclamas da mediocridade dominante: eles falam do tempo, mas não serão jamais transpassados pela espada do tempo, e por isso não sofrem, e por isso não conhecem nenhuma eternidade.


Mas desconfiemos, também, dos que se esforçam denodadamente para não perder o celebérrimo trem da história (que já possui uma duração pré-diluviana) atrás de atingir sempre uma modernidade a qualquer custo: eles não acreditam na História por temerem a própria história que não souberam preservar. E por isso escrevem livros que se desmentem uns aos outros, assumem todas as posturas, perfis, partidos e correntes, nos quais se encurralam, como reses agoniadas de um enorme e mesmo rebanho, e se atrelam, como cães domesticados, a qualquer confraria, para se convencerem, de uma vez por todas, de que estão vivos.


Desconfiemos, finalmente, dos que nem sequer visualizam a Palavra por não pressentirem que, através dela, se celebra a liturgia do ser e, por conseqüência, jamais conseguirão perceber o Ser como enamorado da Palavra que o revelou, e que é a Poesia.


Por isso não estranhemos a sem-cerimônia com que aparecem, sempre juntos, em nossa mirada, poetas e filósofos; porque sendo o mito a origem comum da nossa busca da Verdade, de Beleza e do Bem, como poderíamos jamais fugir da tentativa de reconciliação entre a razão filosófica e a razão poética? E como afastar a proximidade, sempre recapitulada, entre o Mito e o Logos?

E, se ao falar de Poesia, também falamos de Filosofia, é porque pensamos com Georges Gusdorf para quem a última é, "ao mesmo tempo, caminho da má consciência e da nostalgia". A má consciência reflete a angústia do ser e, dessa forma, exige o retorno ao que perdemos; e a nostalgia é a Porta do ser e, portanto, da palavra que a ele nos devolve.


Ângelo Monteiro

Fonte: http://www.icones.com.br/angelo/



Terça-feira

Punti Luminosi: Dante Milano



Horizonte cerrado, baixo muro,
A névoa como uma montanha andando,
O céu molhado como mar escuro.
Por muito tempo ainda fiquei olhando
A terra transformada num monturo.
Por muito tempo ainda ficou ventando.
Cravei no espaço lívido o olhar duro
E vi a folha no ar gesticulando,
Ainda agarrada ao galho, antes do salto
No abismo, a debater-se contra o assalto
Do vento que estremece o mundo, e então
Sumir-se em meio àquele sobressalto,
Depois de muito sacudida no alto
E de muito arrastada pelo chão...

Punti Luminosi: São João Evangelista

São João, por El Greco


Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, fez-se silêncio no céu cerca de meia hora...
Vi então os sete Anjos que estão diante de Deus. Eles receberam sete trombetas.
E veio um outro anjo que se colocou perto do altar, com um turíbulo de ouro. Ele recebeu grande quantidade de incenso, para oferecê-lo com as orações de todos os santos, no altar de ouro que está diante do trono.
E da mão do anjo subia até Deus a fumaça do incenso com as orações dos santos.
Então, o anjo pegou no turíbulo e encheu-o com o fogo do altar e atirou o turíbulo sobre a terra.
Houve trovões, clamores, relâmpagos e terremoto.
Os sete anjos com as sete trombetas prepararam-se para tocar.

O primeiro anjo tocou, e caíram sobre a terra granizo e fogo misturados com sangue. A terça parte da terra foi queimada, a terça parte das árvores foi queimada, e toda a erva verde foi queimada.
O segundo anjo tocou, e qualquer coisa como uma grande montanha ardendo em chamas foi lançada no mar. A terça parte do mar tornou-se sangue.
A terça parte das criaturas marinhas morreu. A terça parte dos navios naufragou.
O terceiro anjo tocou, e caiu do céu uma grande estrela, ardendo qual tocha; caiu sobre a terça parte dos rios e sobre as fontes das águas.
O nome da estrela era ‘Absinto’. A terça parte das águas
tornou-se absinto e muitas pessoas morreram devido às águas, porque se tinham tornado amargas.
O quarto anjo tocou, e foi atingida a terça parte do sol e a terça parte da lua, e a terça parte das estrelas, de modo que escureceu a terça parte deles, e o dia perdeu um terço de sua claridade, e a noite igualmente.


(Apocalipse, 8:1-12)

Quinta-feira

Punti Luminosi: David Mourão-Ferreira




E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

Quarta-feira

Punti Luminosi: Eugénio de Andrade



Green God
Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.

Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.

Terça-feira

Punti Luminosi: Albano Martins


Esta é a margem
do azul. Nenhum
outro limite
reconheço ao sangue.


Domingo

Punti Luminosi: Fernando Pessoa



No Túmulo de Christian Rosenkreutz



I

Quando, despertos deste sono, a vida,
Soubermos o que somos, e o que foi
Essa queda até corpo, essa descida
Até a noite que nos a Alma obstrui,

Conheceremos pois toda a escondida
Verdade do que é tudo que há ou flui?
Não: nem na Alma livre é conhecida...
Nem Deus, que nos criou, em Si a inclui

Deus é o Homem de outro Deus maior:
Adam Supremo, também teve Queda;
Também, como foi nosso Criador,

Foi criado, e a Verdade lhe morreu...
De Além o Abismo, Sprito Seu, Lha veda;
Aquém não há no Mundo, Corpo Seu.

II

Mas antes era o Verbo, aqui perdido
Quando a Infinita Luz, já apagada,
Do Caos, chão do Ser, foi levantada
Em Sombra, e o Verbo ausente escurecido.

Mas se a Alma sente a sua forma errada,
Em si que é Sombra, vê enfim luzido
O Verbo deste Mundo, humano e ungido,
Rosa Perfeita, em Deus crucificada.

Então, senhores do limiar dos Céus,
Podemos ir buscar além de Deus
O Segredo do Mestre e o Bem profundo;

Não só de aqui, mas já de nós, despertos,
No sangue actual de Cristo enfim libertos
Do a Deus que morre a geração do Mundo.

III

Ah, mas aqui, onde irreais erramos,
Dormimos o que somos, e a verdade,
Inda que enfim em sonhos a vejamos,
Vemo-la, porque em sonho, em falsidade.

Sombras buscando corpos, se os achamos
Como sentir a sua realidade?
Com mãos de sombra, Sombras, que tocamos?
Nosso toque é ausência e vacuidade.

Quem desta Alma fechada nos liberta?
Sem ver, ouvimos para além da sala
De ser: mas como, aqui, a porta aberta?
..................................................................

Calmo na falsa morte a nós exposto,
O Livro ocluso contra o peito posto,
Nosso Pai Rosaecruz conhece e cala.

Segunda-feira

Punti Luminosi: Samuel Beckett


Um dia você ficará cego, como eu. Estará sentado num lugar qualquer, pequeno ponto perdido no nada, para sempre, no escuro, como eu. Um dia você dirá, estou cansado, vou me sentar, e sentará. Então você dirá, tenho fome, vou me levantar e conseguir o que comer. Mas você não levantará. E você dirá, fiz mal em sentar, mas já que sentei, ficarei sentado mais um pouco, depois eu me levanto e busco o que comer. Ficará um tempo olhando a parede, então você dirá, vou fechar os olhos, cochilar talvez, depois eu vou me sentir melhor, e você os fechará. E quando reabrir os olhos, não haverá mais parede. Estará rodeado pelo vazio do infinito, nem todos os mortos de todos os tempos, ainda que ressuscitassem, o preencheriam, e então você será como um pedregulho perdido na estepe.

(Fim de Partida – fragmento. Trad. Fábio de Souza Andrade)

Punti Luminosi: Jorge de Lima

Jorge de Lima, por Portinari


O inesperado ser começou a desenrolar as suas faixas em que
estava escrita a história da criação passada e futura.
Retirou a sua imensa cabeça de dentro da torre, sob o es-
trondo das muralhas desabadas com o seu gesto.
A estreita porta abriu-se reverente para ele passar.
O pátio interior espraiou-se como um lago, e as colunas
eternas que sustentavam as abóbadas substituíram os seus
braços e as suas pernas.
Entretanto, ele continuava incluso na eternidade. Nos blo-
cos retangulares de suas órbitas estavam encerradas inúmeras gerações.
Era tão velho que morava dentro da morte.


(Anunciação e encontro de Mira-Celi, poema 1 — fragmento)

Quinta-feira

Punti Luminosi: Murilo Mendes


Murilo Mendes, por Guignard


SÃO JOÃO DA CRUZ

Viver organizando o diamante
(Intuindo sua face) e o escondendo.
Tratá-lo com ternura castigada
Nem mesmo no deserto suspendê-lo.

Mas
Viver consumido da sua graça.
Obedecer a esse fogo frio
Que se resolve em ponto rarefeito.
Viver: do seu silêncio se aprendendo.
Não temer sua perda em noite escura.

E, do próprio diamante já esquecido,
Morrer, do seu esqueleto esvaziado:
Para vir a ser tudo, é preciso ser nada.


Segunda-feira

A Queda de Ícaro

A Queda de Ícaro, quadro de Pieter Brueghel, o Velho

por Bernardo Souto

Há de se observar dois aspectos nesta tela. No primeiro plano, uma corriqueira cena campestre: um camponês ara a terra com a ajuda de seu cavalo. Um pouco mais abaixo, um pastor, com a face direcionada ao céu, tange displicentemente ovelhas. Observe-se que, diante do esplendor e magnitude da natureza, a figura humana torna-se mera coadjuvante na cena. São os famosos "homenzinhos" brueghelianos, sempre (peças do xadrez divino que são) à espera de um milagre ou mesmo de uma catástrofe. Mas o que chama mais a atenção no quadro é, paradoxalmente, o afogamento de Ícaro, fato que passa desapercebido aos campônios.

Podemos interpretar a cena da tela bruegheliana ao menos de duas maneiras. Uma das possíveis explicações seria o descrédito conferido à mitologia clássica à época em que o quadro foi produzido (século XVI). A outra —e mais terrível— explicação é que o quadro seja uma alegoria da indiferença humana para com a dor alheia. Desta forma, em tempos de completo desacerto de valores, como os nossos, a arte de Piether Brueghel ecoa com sua dolorosa atualidade.

A cena bruegheliana dialoga de perto com este poema de Ferreira Gullar:

A MORTE DE CLARICE LISPECTOR

Enquanto te enterravam no cemitério judeu
do Caju
(e o clarão de teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós

Ou mesmo com este outro, que acabou se tornando um "hit" bandeiriano:

MOMENTO NUM CAFÉ

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida.
Confiantes da vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

Domingo

Eis o Mistério da Fé!




PREPARAÇÃO PARA A MORTE

A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.

(Manuel Bandeira)

Sexta-feira

Punti Luminosi: Jacineide Travassos

Perfil de Jacineide Travassos

Poema para as vozes da Ilha


da faca dizes que negue o corte
do mar que afie seus metais
na geometria do peixe

o mar ouve tua voz
canto que anuncia o branco às velas
e os mastros obedientes
à rota do vento saudoso da terra
o mar ouve
o metal dos metais dos sinos
timbre e som de asa
pássaro-vôo de garça
nascido do vento que te deseja terra

o mar
em teu nome
silencia
o metal de estrela em estrela marinha
que todo brilho diga da faca
o peixe em sua geometria

o mar
em teu nome
dissolve o metal em suas águas
onde cavalos marinhos são em lua e prata
lua que agora é branco e branco de ágata
branco de espuma que se deita na terra
tua praia

o mar
sabe do medo
dos metais nervos e veias
que te fazem sangue e terra
o mar
ilha de um pássaro pousado
diz do sol
que traga lume novo à tua casa

o mar
em teu nome
pequena Ilha pátria
banha verde as ramas
traz o cheiro das algas
pelo vento na maresia

o mar
é teu verbo
tempo humano do que não se adia

Segunda-feira

Nascimento do Mundo

nebulosa Helix

O verbo se fez. Dizem que surgiu do hálito do homem, um sopro na terra. Antes da terra o homem, antes do homem o vento, antes do vento Idea que se fez verbo. Idea abriu os olhos para dar origem às coisas e pensou o mundo, a princípio, dividido em dois azuis: um azul de sombra e um azul de luz. Inventou a Morte e a Eternidade, a Caverna e a Inteligência. Idea, embora não soubesse, havia de separar o mundo em dois iguais. Disse: - Acima de mim as alturas, a região celeste. Fixou os astros. Para o céu pensou a Paz e todas as criaturas aladas, como um primeiro sopro da alma disse “Pássaro” e o som desta palavra trouxe o Vento.
Idea viu que o Vento, nascido do Pássaro, era em abstrato. Ser em abstrato talvez tenha sido a intenção da palavra Pássaro, mas o Vento queria também ser palavra e não apenas som de Pássaro. Fez-se então a Vontade e para que o Vento pudesse ser visto e se mover entre as coisas, Idea criou as Nuvens. As Nuvens, nascidas da Vontade e do Vento, logo quiseram ser mais que suas formas. Das Nuvens surgiram Desobediência e Desordem. Já que as Nuvens existiam em razão do Vento, Idea concedeu-lhes a Terra para que fossem também palavra. A Terra sabendo-se palavra dura, sendo apenas a contradição das Nuvens, quis ser pátria para o Pássaro, teria que acolher o Vento. Idea pensou para a Terra também a Água.Tão distante dos astros, sendo apenas o seu espelho, Água reclamou à Idea o seu sentido, os peixes foram criados ao modo dos pássaros. O Vento é o que move as águas. Criou-se os Cavalos Marinhos e toda sorte de plantas e seres viventes, que logo quiseram astros para animar seus azuis, Idea valeu-se de duas palavras para medir o céu do mar. Fez-se a Estrela Marinha.
A Terra atribuía sua dureza ao Sol que lhe corava em seus vermelhos. A Terra Chorou ao conceber Pedra. Foi para seu consolo que Idea criou a palavra Sede, e fez a água ser-lhe útil. Pensou toda a sorte de Verdes e Marrons e deu-lhe o mar, o rio e o lago, as árvores, os cavalos e a Ilha. Elegeu o Sol, a Lua e os outros astros para dar ritmo a tudo, surgiram as Estações e a Música. Para dar-lhes sentido casou-as com o Tempo.
O Tempo, sonhando-se Deus, riu do Homem que o mede, vive enciumado de tudo que existe e é o pai de Necessidade e Solidão. Concebeu-as para justificar o seu nome.
O Homem, embora pense ter surgido depois de tudo, é o próprio Verbo. Nasceu da vontade que Idea compartilhou com o Vento de não ser apenas em abstrato, mas existir.
(Jacineide Travassos)

Quinta-feira

ETERNIDADE

Visões do Além/A Ascensão ao Empíreo - H. Bosch


Ele reviu-se :
não era mais
nem corpo
nem sombra
nem escombros.


Como foi isso?
Tudo irreal:
um barco
sem mar
a boiar.


Ele sentiu-se:
recomeçava.
Vivera
Morrendo
Numa estrela.


Ele despediu-se
de quê ?

De tudo
que amara.
Surdo-mudo
cegara.
Agora vê.


(Jorge de Lima)

Sexta-feira

A CARRUAGEM




THE CHARIOT

Because I could not stop for Death,
He kindly stopped for me;
The carriage held but just ourselves
And Immortality.


We slowly drove, he knew no haste,
And I had put away
My labor, and my leisure too,
For his civility.


We passed the school where children played,
Their lessons scarcely done;
We passed the fields of gazing grain,
We passed the setting sun.


We paused before a house that seemed
A swelling of the ground;
The roof was scarcely visible,
The cornice but a mound.


Since then 't is centuries; but each
Feels shorter than the day
I first surmised the horses' heads
Were toward eternity.

(Emily Dickinson)



A CARRUAGEM

Como não pude me deter diante da morte,
Cordialmente ela se deteve diante de mim.
Sua carruagem acolheu apenas a nós duas
E a Eternidade.

Rodamos bem devagar, ela não tinha pressa.
Pus de lado meu trabalho
E meu lazer
Por sua civilidade.

Passamos pela escola, onde criancinhas brincavam
No intervalo das lições.
Cruzamos searas de pontiagudo grão,
Cruzamos a penumbra do poente.

Paramos em frente a uma casa semelhante
A um tumor no terreno.
Mal divisávamos o telhado;
A cornija, tímida elevação.

Desde então se passaram séculos...
Porém me parecem mais breves que o dia
Em que percebi o olhar dos cavalos
Voltando-se para a Eternidade.

(trad. Bernardo Souto)

Obs.: Minhas traduções não são literais. Tento traduzir aquilo que há de poético no texto de partida.

CHUVA


A chuva, no pátio em que a olho cair, desce em andamentos muito diversos. No centro, é uma fina cortina (ou rede) descontínua, uma queda implacável mas relativamente lenta de gotas provavelmente bastante leves, uma precipitação sempiterna sem vigor, uma fração intensa do meteoro puro. A pouca distância das paredes da direita e da esquerda caem com mais ruído gotas mais pesadas, individuadas. Aqui parecem do tamanho de um grão de trigo, lá de uma ervilha, adiante quase de uma bola de gude. Sobre o rebordo, sobre o parapeito da janela a chuva corre horizontalmente ao passo que na face inferior dos mesmos obstáculos ela se suspende em balas convexas. Seguindo toda a superfície de um pequeno teto de zinco abarcado pelo olhar, ela corre em camada muito fina, ondeada por causa de correntes muito variadas devido a imperceptíveis ondulações e bossas da cobertura. Da calha contígua onde escoa com a contenção de um riacho fundo sem grande declive, cai de repente em um filete perfeitamente vertical, grosseiramente entrançado, até o solo, onde se rompe e espirra em agulhetas brilhantes.Cada uma de suas formas tem um andamento particular; a cada uma corresponde um ruído particular. O todo vive com intensidade, como um mecanismo complicado, tão preciso quanto casual, como uma relojoaria cuja mola é o peso de uma dada massa de vapor em precipitação.O repique no solo dos filetes verticais, o gluglu das calhas, as minúsculas batidas de gongo se multiplicam e ressoam ao mesmo tempo em um concerto sem monotonia, não sem delicadeza.Quando a mola se distende, certas engrenagens por algum tempo continuam a funcionar, cada vez mais lentamente, depois toda a maquinaria pára. Então, se o sol reaparece, tudo logo se desfaz, o brilhante aparelho evapora: choveu.


(Francis Ponge, trad. Júlio Castañon Guimarães)

OS DIAMANTES DE ALPHONSUS



Há versos que, per se, valem por todo um poema. Versos que, mesmo ilhados, subsistem com intenso brilho. O poeta mineiro Alfonso Henrique da Costa Guimarães (ou, simplesmente, Alphonsus de Guimaraens) foi especialista na feitura de tais versos que, certa feita, Manuel Bandeira nomeou “diamantes*”, porque irretocáveis, lapidares e brilhantes.

Assim como nos garimpos, os diamantes de Alphonsus, embora existam em bom número, não são de fácil localização. É que o poeta maneiro, assim como T.S. Eliot, tinha a consciência de que o excesso de jóias, sobretudo se agrupadas no mesmo poema, acabaria encandeando o leitor. Destarte, distribuiu-as sabiamente, de forma que ganhassem realce dentro das poesias, tal como a ilha ganha realce em meio a verde imensidão do oceano.

Pode-se, com toda justiça, aliás, dizer que Cruz e Sousa foi melhor e, sobretudo, maior poeta (seja pela inigualável imaginação criadora, seja pela realização de um projeto estético-filosófico mais rico, alicerçado numa Cosmovisão, por assim dizer, mais complexa). Será injusto, no entanto, dizer que o autor de Broquéis foi melhor verse maker, ou, para falarmos como Ezra Pound, melhor fabbro. Explico: diferentemente de Alphonsus, o poeta catarinense perde-se, aqui e ali, da chamada estética do efeito, como podemos verificar, por exemplo, no famoso poema Violões que Choram — composição na qual o recurso poético da harmonia imitativa através da aliteração aparece de maneira quase abusiva —. Em suma, enquanto a poesia de Cruz e Sousa alcança, através de um sui generis tecido metafórico, patamares de significação mais elevados, a poesia de Alphonsus de Guimaraens soa, por assim dizer, menos artificiosa. Em uma palavra: mais natural. Os exemplos abaixo, creio, ajudarão a ilustrar o que digo.
Alguns diamantes de Alphonsus são, diria Arthur Rimbaud, de uma hedionda beleza, como “Cheguei à terra prometida:/É um deserto cheio de covas”; existem outros em que há “a essência celestial das coisas mortas”, como “O sonho de alguém que já morreu” ou “A palidez de quem já não existe” ; Há, ainda, outros extremamente terrificantes (de um terror, aliás, quase sem par em nossa poesia), como, por exemplo: “Suplício imemorial de quem estando vivo,/A receber no olhar todo o céu compassivo,/ Vê passar o próprio enterro pela porta!” ou “Levanto ao céu os olhos compassivos:/E eis-me contrito e bom, ouvindo as preces/ Que os mortos rezam pelos que estão vivos”. Elemento presente na composição de todos esses diamantes, como se pode observar, é a morte. Soube o poeta mineiro, exceção feita talvez a seu contemporâneo Augusto dos Anjos, explorar como ninguém entre nós essa fértil temática.

Para fruir a poesia de Alphonsus, no entanto, é preciso que se tenha a consciência do garimpeiro, ou seja, a consciência de que uns ínfimos diamantes desentranhados já pagam algumas jornadas inteiras de trabalho, porque diamantes.

Bernardo Souto
Recife, julho de 2007


* “Quando Thiers Martins Moreira era diretor do serviço nacional de teatro pediu-me que traduzisse a Phèdre de Racine. Não anuí. Ele insistiu, insistiu. Afinal me safei com esta: ‘Thiers, se você encontrar alguém que traduza este verso da Phèdre: Le jour n'est pas plus pur que le fond de mon cœur, eu prometo traduzir o resto.’ E expliquei: ‘esse verso é um diamante; eu não sei traduzir diamantes.” (BANDEIRA, Manuel in introdução às Flores das Flores do Mal, de Guilherme de Almeida)

Terça-feira

PERPLEXIDADE


AMAZE


I know
Not these my hands
And yet I think there was
A woman like me once had hands
Like these.



(Adelaide Crapsey)




PERPLEXIDADE

Eu sinto...
Essas mãos não
São minhas. Houve alguém
No passado que as possuiu
Também.


(trad. Bernardo Souto)

Obs.: Minhas traduções não são literais. Tento traduzir aquilo que há de poético no texto de partida.

Quinta-feira

Ângelo Monteiro ou a Poética da Esfinge

O poeta Ângelo Monteiro em meio ao fogo que, a um só tempo, purifica e destrói.
Quadro de Plínio Palhano

por Bernardo Souto

Em meio a um tempo tomado pelas trevas da vulgaridade, tempo em que a busca hedonística de prazeres efêmeros e o culto irracional ao relativismo estético imperam, a poesia surge como um Sol que, a um só tempo, ilumina e norteia o destino dos homens. É por isso que devemos festejar a iniciativa do mestre Ângelo Monteiro, o mais ibérico dos poetas brasileiros contemporâneos, que, por um rasgo de grande generosidade, acaba de presentear o leitor brasileiro com o livro Todas as Coisas têm Língua, volume que reúne, indubitavelmente, o melhor que produziu, em se tratando de poesia, ao longo de mais de quarenta anos de atividade criadora. Mas como navegar em mares tão misteriosos?

O ensaísta Ormindo Pires Filho nos dá uma pista:

A poesia de Ângelo Monteiro é, indiscutivelmente, uma poesia difícil! Misteriosa, sibililina, ela nos lembra algo semelhante ao que os metafísicos ingleses produziram. Quem já leu Donne e Blake entenderá o que estou pretendendo dizer. Mística, impregnada de religiosidade, tocando muitas vezes as fímbrias do sobrenatural, mergulhando outras vezes numa atmosfera que, por estar carregada de extrema luminosidade, nos cega e nos aterroriza. Associemos, portanto, o mistério dos poetas metafísicos ingleses ao misticismo poético de São João da Cruz (Noite Escura e Subida do Monte Carmelo) e de Santa Tereza, a Reformadora (Os sete Castelos da Alma) e teremos a poesia de Ângelo Monteiro.[i]

Embora estas sejam, muito provavelmente, algumas das principais fontes da poética de Ângelo Monteiro (acrescente-se à lista supracitada os sonetos metafísicos de Antero, os poemas místicos de Alphonsus de Guimaraens , a poesia ocultista de Fernando Pessoa – o ortônimo – e a lírica cristã de Jorge de Lima, etc.), tão singular e complexa produção poética transcende toda e qualquer tentativa de exegese logocêntrica. É que em poetas da estirpe de Ângelo Monteiro, aquela concepção novalisiana de que a poesia só pode ser explicada poeticamente parece ser, de fato, a única maneira de se aproximar da esfinge. Assim também o entendeu o próprio poeta:

DA INAUGURAÇÃO DO POEMA

Falar não basta a quem nasceu com o fado
de espalhar a beleza e o dom de amar.
A palavra só vale, se gerar
alguma coisa além do formulado.

De harmônica leveza no traçado,
que seja a frase aérea e linear.
Sem que se deixe nunca de lembrar
que a ordenação não peque pelo enfado.

Lúcido, quanto à forma; e quanto à essência,
que determina a forma do poema,
é mister se elabore em chão de ausência.

Colhendo o inesperado e o pressentido:
pois foi sempre no verso lei suprema
de que só no mistério tem sentido.

(Ângelo Monteiro)

Antonin Artaud , num momento de rara inspiração, parece ter vislumbrado esse mistério de que nos fala Monteiro: “A arte não é a reflexão da vida, mas a vida é a reflexão de um princípio transcendente com o qual a arte nos volta a pôr em contato.”[ii] E a reflexão desse princípio transcendente se dá, na obra poética de Ângelo Monteiro, via transfiguração estético-verbal de uma complexa weltanschauung (cosmovisão, mundividência) Mística. Tal weltanschauung, porque Mística, só pode ser entendida parcialmente e, mesmo assim, através da linguagem simbólica da arte (bom exemplo disso é a poesia de São João da Cruz). Há, portanto, uma dimensão ontológica algo kierkegaardiana na poesia de Ângelo Monteiro, dimensão esta sintetizada de maneira exemplar por Jean-Paul Sartre: “A vida subjetiva, na própria medida em que é vivida, não pode jamais ser objeto de um saber, ela escapa ao conhecimento... Essa interioridade que pretende afirmar-se contra toda filosofia, na sua estreiteza e profundidade infinita (...), eis o que Kierkegaard chamou de existência”[iii] (grifo nosso). A existência, portanto, só pode ser compreendida através de algo que escapa ao conhecimento, e esse algo é precisamente a Fé. Nesse aspecto, “a lei suprema de que [o verso] só no mistério tem sentido” ( para usar as palavras do próprio poeta) nos faz lembrar o misterioso silêncio penhe de sentido de Abraão a caminho do Monte Moriá, que nos é recontado, não por acaso, pelo próprio Søren Kierkegaard, no livro Temor e Tremor. A poesia monteiriana, nessa perspectiva, seria a própria "voz do inefável", para utilizarmos uma expressão de Goethe. Essa concepção de que a ratio logocêtrica é insuficiente para abarcar toda a complexidade da existência é bem ilustrada no soneto abaixo:
Em nosso sol se instala o Inimigo
se afirma em cada passo que o renega
em nossas águas seu negror navega
se esconde em nossa vinha e em nosso trigo.

Ao próprio Amor domina o Inimigo
ao torná-lo mais dócil em paixão cega.
A nossa inteira vida a ele se apega
e contra ele é vão qualquer abrigo.

Das nossas próprias ânsias se sustenta
dos nossos próprios gritos se arrebata
e sua teia é tão longa quanto lenta.

Sempre belo se veste de gerânios
e jovem como a luz - que não tem data
- nos sepulta nos seus subterrâneos.
(Ângelo Monteiro)

Muito teríamos ainda a dizer sobre a poesia de Ângelo Monteiro. No entanto, creio eu, este brevíssimo ensaio tem ao menos o mérito de servir como um razoável esboço para um estudo mais aprofundado que pretendemos fazer sobre a poesia monteiriana num futuro próximo. Otto Maria Carpeaux, certa vez, escreveu em um dos seus iluminados ensaios o seguinte: “Vou construir o meu Graciliano Ramos”. Tentei, com a só fragilidade da palavra humana, construir o meu Ângelo Monteiro. Se o resultado foi satisfatório, só o tempo dirá. Afinal de contas, o tempo é o mais implacável dos juízes.

***

[i] MONTEIRO, Ângelo. Todas as Coisas têm Língua. Recife: CEPE, 2008. pp. 19-20.

[ii] BLAKE, W. Escritos de William Blake. Tradução de Alberto Marsicano e Regina de B. Carvalho , L & PM, Porto Alegre, 1984. p. 37.

[iii] KIERKEGAARD, Søren. “Vida e obra” in Kierkegaard [Coleção Pensadores], Abril Cultural, 1984, pp. IX - X.
*
Ângelo Monteiro no "Café Colombo"/ entrevista:

Sexta-feira

A Queda

Gravura de Gustave Doré

Caros amigos,


Decidi, mais uma vez, mudar o título do meu site. Enquanto Deus me consentir continuarei mudando! Desgraçadamente, não segui o sábio conselho de Quintana: “Nunca dês um nome a um rio: Sempre é outro rio a passar”... Tal mudança, explico, deve-se ao processo de desorientalização que estou vivendo. Sou, custei a acreditar, um ocidental acidentado, para usar a expressão feliz de Marco Lucchesi. Novalis dizia que Spinoza era um "homem intoxicado de Deus”; eu, guardadas as devidas proporções, estava me tornando um homem intoxicado de Zen. Desta forma, fecha-se um ciclo. Longa e proveitosa foi a estadia na casa de mestre Bashô. Migro agora— sem medo, sem remorso, sem saudade— para a casa de Milton, Blake et caterva. Espero ser bem recebido.
Grato pela compreensão.


BERNARDO SOUTO
***

Conheci a Beleza que não morre
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,

Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre;
Assim eu vi o mundo e o que ele encerra
Perder a cor, bem como a nuvem que erra
Ao pôr-do-sol e sobre o mar discorre.

Pedindo à forma, em vão, a idéia pura,
Tropeço, em sombras, na matéria dura,
E encontro a imperfeição de quanto existe.

Recebi o batismo dos poetas,
E, assentado entre as formas incompletas,
Para sempre fiquei pálido e triste.
(Antero de Quental)
Direi: o que o eu-lírico anteriano fala é verdade e mentira, a um só tempo. Explico, concordo com o grande poeta místico Rumi: "O Silêncio surgiu antes do Faça-se."
***
"Precisamos de livros que nos afetem como um desastre, que nos magoem profundamente, como a morte de alguém a quem amávamos mais do que a nós mesmos, algo como ser banido para uma floresta longe de todos. Um livro tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós. É nisso que eu creio.”
Franz Kafka, carta a Oscar Pollak, 1904
p.s.: Devo o conhecimento desse kafkiano texto kafkiano ao confrade Alisson da Hora.

Quarta-feira



manhã de neblina
agora é branco
o verde da colina
(Bernardo Souto)
***




gotas d'água
na lâmina do lago
flores de cristal

(Bernardo Souto)
***





leve desliza
a folha no lago
barco de formigas
(Bernardo Souto)

Sexta-feira

METAFÍSICA DAS BORBOLETAS


serão almas
das flores de outrora?
(Bernardo Souto)

O UNIVERSO EM TRÊS VERSOS


O poeta William Blake certamente nada conhecia acerca da literatura japonesa, o que não o impediu, entretanto, de compreender como poucos a essência, a anima do micropoema nipônico:


To see a world in a grain of sand
And a heaven in a wild flower
Hold infinity in the palm of your hand
And eternity in an hour.

(William Blake)

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O VAGA-LUME E O RELÂMPAGO DO HAIKAI


o vaga-lume
— ó,
quase eu disse
mas estava só

(Taigi, trad. Paulo Leminski)


Um ocidental ocidental (ocidental acidentado, diria Marco Lucchesi) provavelmente diria que a linguagem do haikai acima é pobre em metáforas.E o diria por quê? Sobretudo por ignorância acerca da cultura do Extremo Oriente. É que aos olhos de um ocidental ocidental — que desconhece noções basilares do éthos japonês como o satori — o "vaga-lume" do poema acima é apenas um intrigante inseto semelhante a uma esmeralda de fogo.

Bem, não sou um expert em cultura japonesa, mas não tenho grandes dificuldades em interpretar "vaga-lume" como metáfora do satori , e o haikai como metonímia (microcosmo) da repentina Revelação.

***


Outra metáfora bastante feliz para satori é relâmpago. É que o raio subitamente transforma, mesmo que por milésimos de segundo, a noite em dia. Desta meneira, desvela o outrora velado.

tudo claro
ainda não era dia
era apenas o raio


(Paulo Leminski)

A aura do haikai, portanto, é fundamentalmente religiosa. Religiosa, contudo, na acepção mais oriental do termo, isto é: panteísta, xintoísta, taoísta e, sobretudo, zen-budista.

Quarta-feira

O ESPANTO DA ORIGEM


A poesia - toda - é uma viagem ao desconhecido. (Maiakóvski)


A Poesia, segundo o poeta pré-romântico Novalis, é "a religião original da humanidade". Entenda-se "religião" no sentido etimológico do termo, ou seja, no sentido de religare (ligar novamente, atar novamente). A poesia então, dentro desta perspectiva, seria a busca do elo perdido com o Incognoscível, com a Verdade Original.O filósofo Bertrand Russell, por exemplo, defende tese bem parecida: para Russell a poesia é um ser que vive entre as esferas da Filosofia e da Teologia, tangenciando e nutrindo-se de ambas. Já o escritor argentino Jorge Luis Borges não enxerga distinção entre Poesia e Metafísica. Portanto os três, cada um ao seu modo, concebem o fenômeno poético como algo que não pode ser meramente circunscrito aos ditames da racionalidade.
No Japão Ancestral, a Poesia era tida como sagrada, como verbalização da experiência mística. Era, por assim dizer, a própria expressão verbal do satori (palavra japonesa que significa, grosso modo, iluminação metafísica). Forma poemática nipônica mais conhecida pelos ocidentais, o hai-kai é uma dos vários caminhos para a manifestação da experiência Zen. E o que seria, afinal, experiência Zen? As palavras de Murillo Nunes de Azevedo podem, mesmo que debilmente (visto que a linguagem jamais será capaz de abarcar toda a complexidade do mundo), ajudar-nos a entender/ sentir:



é preciso a todos os momentos cultivar o silêncio como planta tenra, para que possamos encontrar a solidão no meio do mundo. Cada objeto, cada ser, cada instante é um mistério pleno de significação. Debaixo da superfície das coisas está a base última onde elas se encontram. Cada uma delas é um caminho aberto com aquele que as sustém em sua grandeza infinita. O encontro é um ato de silêncio. Pois não há participação sem silêncio. Silêncio da fonte que brota no deserto. Do Lótus que desabrocha. Da lágrima que escorre. Tudo se resume, então, segundo o Zen, na busca de silêncio no meio de um universo de ruídos. (Zen e as Aves de Rapina. São Paulo, Ed.Cultrix, 1970, p.14).



Posto o quê, podemos, creio eu, compreender melhor o poema que se segue:


verde a árvore caída
vira amarelo
a última vez na vida


(Paulo Leminski)


Analisando o hai-kai acima à luz da teoria defendida por Chklovski no ensaio A Arte como Procedimento, concluímos que o processo de singularização do objeto (a árvore, no caso do poema em análise) utilizado por Leminski dá-se por meio de uma descrição insuspeitada de um fato aparentemente banal (a saber, a queda de uma árvore). Assim, através da desautomatização do olhar - desautomatização esta deflagrada pelo acréscimo de uma informação nova (de cunho dramático) no último verso do poema -, o poeta transforma um acontecimento aparentemente corriqueiro em Poesia. O êxito estético do poema, portanto, deve-se menos à percepção por parte do poeta de que as folhas mudam sazonalmente de tonalidade que propriamente àquilo que Maurice Merleau-Ponty - retomando, ao seu modo, a noção de ‘estranhamento’ (ostranienie) dos formalistas russos - chama de "retorno à experiência do espanto original". Em suma, poeta nos faz, para utilizar uma expressão de Oswald de Andrade, "ver com os olhos livres", provocando, assim, uma quebra no horizonte de expectativa do leitor que o transporta à ‘epifania’ do satori.



Corvos
Nos galhos curvos:
Únicas folhas.
(Cláudio Feldman)

Sexta-feira

BORGES, EL ORIENTAL


De la salvación por las obras
Jorge Luis Borges; María Kodama:Atlas. 1ra ed. Buenos Aires, Sudamericana, 1984.


En un otoño, en uno de los otoños del tiempo, las divinidades del Shinto se congregaron, no por primera vez, en Izumo. Se dice que eran ocho millones pero soy un hombre muy tímido y me sentiría un poco perdido entre tanta gente. Por lo demás, no conviene manejar cifras inconcebibles. Digamos que eran ocho, ya que el ocho es, en estas islas, de buen agüero.
Estaban tristes, pero no lo mostraban, porque los rostros de las divinidades son kanjis que no se dejan descifrar. En la verde cumbre de un cerro se sentaron en rueda. Desde su firmamento o desde una piedra o un copo de nieve habían vigilado a los hombres. Una de las divinidades dijo:
Hace muchos días, o muchos siglos, nos reunimos aquí para crear el Japón y el mundo. Las aguas, los peces, los siete colores del arco, las generaciones de las plantas y de los animales, nos han salido bien. Para que tantas cosas no los abrumaran, les dimos a los hombres la sucesión, el día plural y la noche una. Les otorgamos asimismo el don de ensayar algunas variaciones. La abeja sigue repitiendo colmenas; el hombre ha imaginado instrumentos: el arado, la llave, el calidoscopio. También ha imaginado la espada y el arte de la guerra. Acaba de imaginar un arma invisible que puede ser el fin de la historia. Antes que ocurra ese hecho insensato, borremos a los hombres.
Se quedaron pensando. Otra divinidad dijo sin apuro:
Es verdad. Han imaginado esa cosa atroz, pero también hay ésta, que cabe en el espacio que abarcan sus diecisiete sílabas.
Las entonó. Estaban en un idioma desconocido y no pude entenderlas.
La divinidad mayor sentenció:
Que los hombres perduren.
Así, por obra de un haiku, la especie humana se salvó.






Diecisiete haiku
La cifra, 1ra ed. Buenos Aires, Emecé, 1981. 1ra ed. Madrid, Alianza Editorial, 1981. Col. Alianza Tres, 159.


1
Algo me han dicho
la tarde y la montaña.
Ya lo he perdido.

2

La vasta noche
no es ahora otra cosa
que una fragancia.

3

¿Es o no es
el sueño que olvidéantes
del alba?

4

Callan las cuerdas.
La música sabíalo
que yo siento.

5

Hoy no me alegranlos
almendros del huerto.
Son tu recuerdo.

6

Oscuramente
libros, láminas, llaves
siguen mi suerte.

7

Desde aquel día
no he movido las pieza
sen el tablero.

8

En el desierto
acontece la aurora.
Alguien lo sabe.

9

La ociosa espada
sueña con sus batallas.
Otro es mi sueño.

10

El hombre ha muerto.
La barba no lo sabe.
Crecen las uñas.

11

Ésta es la manoque
alguna vez tocaba
tu cabellera.

12

Bajo el alero
el espejo no copia
más que la luna.

13

Bajo la luna
la sombra que se alarga
es una sola.

14

¿Es un imperio
esa luz que se apaga
o una luciérnaga?

15

La luna nueva
ella también la mira
desde otro puerto.

16

Lejos un trino.
El ruiseñor no sabe
que te consuela.

17

La vieja mano
sigue trazando versos
para el olvido.








Tankas

El oro de los tigres, 1ra ed. en OP. Buenos Aires, Emecé, 1972. Col. Obra poética de Borges


1

Alto en la cumbre
todo el jardín es luna,
luna de oro.
Más precioso es el roce
de tu boca en la sombra.

2

La voz del ave
que la penumbra esconde
ha enmudecido.
Andas por tu jardín.
Algo, lo sé, te falta.

3

La ajena copa,
la espada que fue espada
en otra mano,
la luna de la calle,
¿dime, acaso no bastan?


4

Bajo la luna
el tigre de oro y sombra
mira sus garras.
No sabe que en el alba
han destrozado un hombre.

5

Triste la lluvia
que sobre el mármol cae,
triste ser tierra.
Triste no ser los días
del hombre, el sueño, el alba.

6

No haber caído,
como otros de mi sangre,
en la batalla.
Ser en la vana noche
él que cuenta las sílabas.

Quinta-feira

FANOPÉIA

Tabi

o vento
açoita
bambus:

dançam
sombras.

no caule
da vagem,
o orvalho

resvala
na lua.

o gato
imita
o tigre:

rumor
de aves.

brancas
geleiras
lácteas:

o colo
do cisne.

o fuji
apunhala
a névoa:

fiapos
de branco.

no sonho,
o monge
em viagem:

tudo
é miragem.

(Claudio Daniel - Yumê)

Sexta-feira

A LUA DE AUSCHWITZ


lua à vista
brilhavas assim
sobre auschwitz?


(Paulo Leminski)

Sábado

BASHÔ E AS CIGARRAS ETERNAS



Yagate shinu
Keshiki wa miezu
Semi no koe


(Matsuó Bashô, original japonês)

***

Tradução do Manuel Bandeira:

A cigarra...ouvi:
Nada revela em seu canto
Que ela vai morrer.


***

Minhas versões (transcriações):

I

O solo da cigarra
Nem parece
A música da morte

II

RÉQUIEM

A cigarra...vê:
Pouco se lixa
Que irá morrer


Freud dizia que a principal causa da angústia humana é o temor em relação à morte.Mas a idéia de morte,evidentemente, só existe para quem está vivo (acho que Epicuro escreveu algo parecido)...A aceitação de que a morte é uma certeza inexorável faz-se essencial, creio, para o expurgo de nossas angústias.

Para a cigarra de Bashô a efemeridade eterna do Último Canto faz da morte iminente muito mais que o desenlace definitivo, faz do Último Canto o ÁPICE de toda a existência. Pena que poucos compreendam a dimensão cósmica do Canto das cigarras...

Quinta-feira

A FLAUTA MÁGICA DE LI TAI PO



DUAS FLAUTAS

Uma noite em que eu respirava o perfume das flores
à beira do rio,
o vento trouxe-me a canção de uma flauta distante
Para responder-lhe, cortei um ramo de salgueiro
e a canção de minha flauta embalou a noite encantada.

Desde então, todos os dias,
à hora em que o campo adormece,
os pássaros ouvem a conversa
de dois pássaros desconhecidos,
cuja linguagem, no entanto, compreendem.


(Li Po, trad. Cecília Meireles)


A obstinada busca do Sublime.A convicção de que o simples não constitui senão o derradeiro estágio do complexo.Eis a grande mensagem de Li Tai Po, o maior poeta chinês de todos os tempos.Reza a lenda que morreu afogado num lago, tentando apanhar a imagem da lua refletida nas águas.Ofereço esta humilde postagem a Li Tai Po (701-762): poético até no último dos gestos.

ALBANO MARTINS HAICAÍSTA

O poeta português Albano Martins




Um mar azul
pintou de branco
o vôo das gaivotas


*


No inverno,
a árvore pede à neve :
- Agasalha-me!


*


Nem sempre a neve
cai do céu : às vezes,
explode numa flor.


*


No bico do melro
a natureza celebra
o triunfo do verão.


*


O verão deixa,
como herança, ao outono
um leque de folhas secas.


*

Castanha é a cor
do sorriso
do ouriço.


*

Pelos corredores
do outono passam
as folhas, nuas.


*

O mocho traz nos olhos,
escondido, um sol.
Com ele,incendeia a noite.


*

A andorinha faz
a sua casa
no vento.


*

O papagaio sabe
que o silêncio deixa
um nó na garganta.

Terça-feira



Estalactites.
Lágrimas da terra
quando chora por dentro.

(Saulo Mendonça)

Sábado



no mesmo galho
uma formiga a passeio
outra a trabalho


(Ricardo Silvestrin)