Terça-feira

Punti Luminosi: São João Evangelista

São João, por El Greco


Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, fez-se silêncio no céu cerca de meia hora...
Vi então os sete Anjos que estão diante de Deus. Eles receberam sete trombetas.
E veio um outro anjo que se colocou perto do altar, com um turíbulo de ouro. Ele recebeu grande quantidade de incenso, para oferecê-lo com as orações de todos os santos, no altar de ouro que está diante do trono.
E da mão do anjo subia até Deus a fumaça do incenso com as orações dos santos.
Então, o anjo pegou no turíbulo e encheu-o com o fogo do altar e atirou o turíbulo sobre a terra.
Houve trovões, clamores, relâmpagos e terremoto.
Os sete anjos com as sete trombetas prepararam-se para tocar.

O primeiro anjo tocou, e caíram sobre a terra granizo e fogo misturados com sangue. A terça parte da terra foi queimada, a terça parte das árvores foi queimada, e toda a erva verde foi queimada.
O segundo anjo tocou, e qualquer coisa como uma grande montanha ardendo em chamas foi lançada no mar. A terça parte do mar tornou-se sangue.
A terça parte das criaturas marinhas morreu. A terça parte dos navios naufragou.
O terceiro anjo tocou, e caiu do céu uma grande estrela, ardendo qual tocha; caiu sobre a terça parte dos rios e sobre as fontes das águas.
O nome da estrela era ‘Absinto’. A terça parte das águas
tornou-se absinto e muitas pessoas morreram devido às águas, porque se tinham tornado amargas.
O quarto anjo tocou, e foi atingida a terça parte do sol e a terça parte da lua, e a terça parte das estrelas, de modo que escureceu a terça parte deles, e o dia perdeu um terço de sua claridade, e a noite igualmente.


(Apocalipse, 8:1-12)

Quinta-feira

Punti Luminosi: David Mourão-Ferreira




E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

Quarta-feira

Punti Luminosi: Eugénio de Andrade



Green God
Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.

Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.

Terça-feira

Punti Luminosi: Albano Martins


Esta é a margem
do azul. Nenhum
outro limite
reconheço ao sangue.


Domingo

Punti Luminosi: Fernando Pessoa



No Túmulo de Christian Rosenkreutz



I

Quando, despertos deste sono, a vida,
Soubermos o que somos, e o que foi
Essa queda até corpo, essa descida
Até a noite que nos a Alma obstrui,

Conheceremos pois toda a escondida
Verdade do que é tudo que há ou flui?
Não: nem na Alma livre é conhecida...
Nem Deus, que nos criou, em Si a inclui

Deus é o Homem de outro Deus maior:
Adam Supremo, também teve Queda;
Também, como foi nosso Criador,

Foi criado, e a Verdade lhe morreu...
De Além o Abismo, Sprito Seu, Lha veda;
Aquém não há no Mundo, Corpo Seu.

II

Mas antes era o Verbo, aqui perdido
Quando a Infinita Luz, já apagada,
Do Caos, chão do Ser, foi levantada
Em Sombra, e o Verbo ausente escurecido.

Mas se a Alma sente a sua forma errada,
Em si que é Sombra, vê enfim luzido
O Verbo deste Mundo, humano e ungido,
Rosa Perfeita, em Deus crucificada.

Então, senhores do limiar dos Céus,
Podemos ir buscar além de Deus
O Segredo do Mestre e o Bem profundo;

Não só de aqui, mas já de nós, despertos,
No sangue actual de Cristo enfim libertos
Do a Deus que morre a geração do Mundo.

III

Ah, mas aqui, onde irreais erramos,
Dormimos o que somos, e a verdade,
Inda que enfim em sonhos a vejamos,
Vemo-la, porque em sonho, em falsidade.

Sombras buscando corpos, se os achamos
Como sentir a sua realidade?
Com mãos de sombra, Sombras, que tocamos?
Nosso toque é ausência e vacuidade.

Quem desta Alma fechada nos liberta?
Sem ver, ouvimos para além da sala
De ser: mas como, aqui, a porta aberta?
..................................................................

Calmo na falsa morte a nós exposto,
O Livro ocluso contra o peito posto,
Nosso Pai Rosaecruz conhece e cala.

Segunda-feira

Punti Luminosi: Samuel Beckett


Um dia você ficará cego, como eu. Estará sentado num lugar qualquer, pequeno ponto perdido no nada, para sempre, no escuro, como eu. Um dia você dirá, estou cansado, vou me sentar, e sentará. Então você dirá, tenho fome, vou me levantar e conseguir o que comer. Mas você não levantará. E você dirá, fiz mal em sentar, mas já que sentei, ficarei sentado mais um pouco, depois eu me levanto e busco o que comer. Ficará um tempo olhando a parede, então você dirá, vou fechar os olhos, cochilar talvez, depois eu vou me sentir melhor, e você os fechará. E quando reabrir os olhos, não haverá mais parede. Estará rodeado pelo vazio do infinito, nem todos os mortos de todos os tempos, ainda que ressuscitassem, o preencheriam, e então você será como um pedregulho perdido na estepe.

(Fim de Partida – fragmento. Trad. Fábio de Souza Andrade)

Punti Luminosi: Jorge de Lima

Jorge de Lima, por Portinari


O inesperado ser começou a desenrolar as suas faixas em que
estava escrita a história da criação passada e futura.
Retirou a sua imensa cabeça de dentro da torre, sob o es-
trondo das muralhas desabadas com o seu gesto.
A estreita porta abriu-se reverente para ele passar.
O pátio interior espraiou-se como um lago, e as colunas
eternas que sustentavam as abóbadas substituíram os seus
braços e as suas pernas.
Entretanto, ele continuava incluso na eternidade. Nos blo-
cos retangulares de suas órbitas estavam encerradas inúmeras gerações.
Era tão velho que morava dentro da morte.


(Anunciação e encontro de Mira-Celi, poema 1 — fragmento)

Quinta-feira

Punti Luminosi: Murilo Mendes


Murilo Mendes, por Guignard


SÃO JOÃO DA CRUZ

Viver organizando o diamante
(Intuindo sua face) e o escondendo.
Tratá-lo com ternura castigada
Nem mesmo no deserto suspendê-lo.

Mas
Viver consumido da sua graça.
Obedecer a esse fogo frio
Que se resolve em ponto rarefeito.
Viver: do seu silêncio se aprendendo.
Não temer sua perda em noite escura.

E, do próprio diamante já esquecido,
Morrer, do seu esqueleto esvaziado:
Para vir a ser tudo, é preciso ser nada.


Segunda-feira

A Queda de Ícaro

A Queda de Ícaro, quadro de Pieter Brueghel, o Velho

por Bernardo Souto

Há de se observar dois aspectos nesta tela. No primeiro plano, uma corriqueira cena campestre: um camponês ara a terra com a ajuda de seu cavalo. Um pouco mais abaixo, um pastor, com a face direcionada ao céu, tange displicentemente ovelhas. Observe-se que, diante do esplendor e magnitude da natureza, a figura humana torna-se mera coadjuvante na cena. São os famosos "homenzinhos" brueghelianos, sempre (peças do xadrez divino que são) à espera de um milagre ou mesmo de uma catástrofe. Mas o que chama mais a atenção no quadro é, paradoxalmente, o afogamento de Ícaro, fato que passa desapercebido aos campônios.

Podemos interpretar a cena da tela bruegheliana ao menos de duas maneiras. Uma das possíveis explicações seria o descrédito conferido à mitologia clássica à época em que o quadro foi produzido (século XVI). A outra —e mais terrível— explicação é que o quadro seja uma alegoria da indiferença humana para com a dor alheia. Desta forma, em tempos de completo desacerto de valores, como os nossos, a arte de Piether Brueghel ecoa com sua dolorosa atualidade.

A cena bruegheliana dialoga de perto com este poema de Ferreira Gullar:

A MORTE DE CLARICE LISPECTOR

Enquanto te enterravam no cemitério judeu
do Caju
(e o clarão de teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós

Ou mesmo com este outro, que acabou se tornando um "hit" bandeiriano:

MOMENTO NUM CAFÉ

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida.
Confiantes da vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

Domingo

Eis o Mistério da Fé!




PREPARAÇÃO PARA A MORTE

A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.

(Manuel Bandeira)

Sexta-feira

Punti Luminosi: Jacineide Travassos

Perfil de Jacineide Travassos

Poema para as vozes da Ilha


da faca dizes que negue o corte
do mar que afie seus metais
na geometria do peixe

o mar ouve tua voz
canto que anuncia o branco às velas
e os mastros obedientes
à rota do vento saudoso da terra
o mar ouve
o metal dos metais dos sinos
timbre e som de asa
pássaro-vôo de garça
nascido do vento que te deseja terra

o mar
em teu nome
silencia
o metal de estrela em estrela marinha
que todo brilho diga da faca
o peixe em sua geometria

o mar
em teu nome
dissolve o metal em suas águas
onde cavalos marinhos são em lua e prata
lua que agora é branco e branco de ágata
branco de espuma que se deita na terra
tua praia

o mar
sabe do medo
dos metais nervos e veias
que te fazem sangue e terra
o mar
ilha de um pássaro pousado
diz do sol
que traga lume novo à tua casa

o mar
em teu nome
pequena Ilha pátria
banha verde as ramas
traz o cheiro das algas
pelo vento na maresia

o mar
é teu verbo
tempo humano do que não se adia

Segunda-feira

Nascimento do Mundo

nebulosa Helix

O verbo se fez. Dizem que surgiu do hálito do homem, um sopro na terra. Antes da terra o homem, antes do homem o vento, antes do vento Idea que se fez verbo. Idea abriu os olhos para dar origem às coisas e pensou o mundo, a princípio, dividido em dois azuis: um azul de sombra e um azul de luz. Inventou a Morte e a Eternidade, a Caverna e a Inteligência. Idea, embora não soubesse, havia de separar o mundo em dois iguais. Disse: - Acima de mim as alturas, a região celeste. Fixou os astros. Para o céu pensou a Paz e todas as criaturas aladas, como um primeiro sopro da alma disse “Pássaro” e o som desta palavra trouxe o Vento.
Idea viu que o Vento, nascido do Pássaro, era em abstrato. Ser em abstrato talvez tenha sido a intenção da palavra Pássaro, mas o Vento queria também ser palavra e não apenas som de Pássaro. Fez-se então a Vontade e para que o Vento pudesse ser visto e se mover entre as coisas, Idea criou as Nuvens. As Nuvens, nascidas da Vontade e do Vento, logo quiseram ser mais que suas formas. Das Nuvens surgiram Desobediência e Desordem. Já que as Nuvens existiam em razão do Vento, Idea concedeu-lhes a Terra para que fossem também palavra. A Terra sabendo-se palavra dura, sendo apenas a contradição das Nuvens, quis ser pátria para o Pássaro, teria que acolher o Vento. Idea pensou para a Terra também a Água.Tão distante dos astros, sendo apenas o seu espelho, Água reclamou à Idea o seu sentido, os peixes foram criados ao modo dos pássaros. O Vento é o que move as águas. Criou-se os Cavalos Marinhos e toda sorte de plantas e seres viventes, que logo quiseram astros para animar seus azuis, Idea valeu-se de duas palavras para medir o céu do mar. Fez-se a Estrela Marinha.
A Terra atribuía sua dureza ao Sol que lhe corava em seus vermelhos. A Terra Chorou ao conceber Pedra. Foi para seu consolo que Idea criou a palavra Sede, e fez a água ser-lhe útil. Pensou toda a sorte de Verdes e Marrons e deu-lhe o mar, o rio e o lago, as árvores, os cavalos e a Ilha. Elegeu o Sol, a Lua e os outros astros para dar ritmo a tudo, surgiram as Estações e a Música. Para dar-lhes sentido casou-as com o Tempo.
O Tempo, sonhando-se Deus, riu do Homem que o mede, vive enciumado de tudo que existe e é o pai de Necessidade e Solidão. Concebeu-as para justificar o seu nome.
O Homem, embora pense ter surgido depois de tudo, é o próprio Verbo. Nasceu da vontade que Idea compartilhou com o Vento de não ser apenas em abstrato, mas existir.
(Jacineide Travassos)

Quinta-feira

ETERNIDADE

Visões do Além/A Ascensão ao Empíreo - H. Bosch


Ele reviu-se :
não era mais
nem corpo
nem sombra
nem escombros.


Como foi isso?
Tudo irreal:
um barco
sem mar
a boiar.


Ele sentiu-se:
recomeçava.
Vivera
Morrendo
Numa estrela.


Ele despediu-se
de quê ?

De tudo
que amara.
Surdo-mudo
cegara.
Agora vê.


(Jorge de Lima)

Sexta-feira

A CARRUAGEM




THE CHARIOT

Because I could not stop for Death,
He kindly stopped for me;
The carriage held but just ourselves
And Immortality.


We slowly drove, he knew no haste,
And I had put away
My labor, and my leisure too,
For his civility.


We passed the school where children played,
Their lessons scarcely done;
We passed the fields of gazing grain,
We passed the setting sun.


We paused before a house that seemed
A swelling of the ground;
The roof was scarcely visible,
The cornice but a mound.


Since then 't is centuries; but each
Feels shorter than the day
I first surmised the horses' heads
Were toward eternity.

(Emily Dickinson)



A CARRUAGEM

Como não pude me deter diante da morte,
Cordialmente ela se deteve diante de mim.
Sua carruagem acolheu apenas a nós duas
E a Eternidade.

Rodamos bem devagar, ela não tinha pressa.
Pus de lado meu trabalho
E meu lazer
Por sua civilidade.

Passamos pela escola, onde criancinhas brincavam
No intervalo das lições.
Cruzamos searas de pontiagudo grão,
Cruzamos a penumbra do poente.

Paramos em frente a uma casa semelhante
A um tumor no terreno.
Mal divisávamos o telhado;
A cornija, tímida elevação.

Desde então se passaram séculos...
Porém me parecem mais breves que o dia
Em que percebi o olhar dos cavalos
Voltando-se para a Eternidade.

(trad. Bernardo Souto)

Obs.: Minhas traduções não são literais. Tento traduzir aquilo que há de poético no texto de partida.

CHUVA


A chuva, no pátio em que a olho cair, desce em andamentos muito diversos. No centro, é uma fina cortina (ou rede) descontínua, uma queda implacável mas relativamente lenta de gotas provavelmente bastante leves, uma precipitação sempiterna sem vigor, uma fração intensa do meteoro puro. A pouca distância das paredes da direita e da esquerda caem com mais ruído gotas mais pesadas, individuadas. Aqui parecem do tamanho de um grão de trigo, lá de uma ervilha, adiante quase de uma bola de gude. Sobre o rebordo, sobre o parapeito da janela a chuva corre horizontalmente ao passo que na face inferior dos mesmos obstáculos ela se suspende em balas convexas. Seguindo toda a superfície de um pequeno teto de zinco abarcado pelo olhar, ela corre em camada muito fina, ondeada por causa de correntes muito variadas devido a imperceptíveis ondulações e bossas da cobertura. Da calha contígua onde escoa com a contenção de um riacho fundo sem grande declive, cai de repente em um filete perfeitamente vertical, grosseiramente entrançado, até o solo, onde se rompe e espirra em agulhetas brilhantes.Cada uma de suas formas tem um andamento particular; a cada uma corresponde um ruído particular. O todo vive com intensidade, como um mecanismo complicado, tão preciso quanto casual, como uma relojoaria cuja mola é o peso de uma dada massa de vapor em precipitação.O repique no solo dos filetes verticais, o gluglu das calhas, as minúsculas batidas de gongo se multiplicam e ressoam ao mesmo tempo em um concerto sem monotonia, não sem delicadeza.Quando a mola se distende, certas engrenagens por algum tempo continuam a funcionar, cada vez mais lentamente, depois toda a maquinaria pára. Então, se o sol reaparece, tudo logo se desfaz, o brilhante aparelho evapora: choveu.


(Francis Ponge, trad. Júlio Castañon Guimarães)

OS DIAMANTES DE ALPHONSUS



Há versos que, per se, valem por todo um poema. Versos que, mesmo ilhados, subsistem com intenso brilho. O poeta mineiro Alfonso Henrique da Costa Guimarães (ou, simplesmente, Alphonsus de Guimaraens) foi especialista na feitura de tais versos que, certa feita, Manuel Bandeira nomeou “diamantes*”, porque irretocáveis, lapidares e brilhantes.

Assim como nos garimpos, os diamantes de Alphonsus, embora existam em bom número, não são de fácil localização. É que o poeta maneiro, assim como T.S. Eliot, tinha a consciência de que o excesso de jóias, sobretudo se agrupadas no mesmo poema, acabaria encandeando o leitor. Destarte, distribuiu-as sabiamente, de forma que ganhassem realce dentro das poesias, tal como a ilha ganha realce em meio a verde imensidão do oceano.

Pode-se, com toda justiça, aliás, dizer que Cruz e Sousa foi melhor e, sobretudo, maior poeta (seja pela inigualável imaginação criadora, seja pela realização de um projeto estético-filosófico mais rico, alicerçado numa Cosmovisão, por assim dizer, mais complexa). Será injusto, no entanto, dizer que o autor de Broquéis foi melhor verse maker, ou, para falarmos como Ezra Pound, melhor fabbro. Explico: diferentemente de Alphonsus, o poeta catarinense perde-se, aqui e ali, da chamada estética do efeito, como podemos verificar, por exemplo, no famoso poema Violões que Choram — composição na qual o recurso poético da harmonia imitativa através da aliteração aparece de maneira quase abusiva —. Em suma, enquanto a poesia de Cruz e Sousa alcança, através de um sui generis tecido metafórico, patamares de significação mais elevados, a poesia de Alphonsus de Guimaraens soa, por assim dizer, menos artificiosa. Em uma palavra: mais natural. Os exemplos abaixo, creio, ajudarão a ilustrar o que digo.
Alguns diamantes de Alphonsus são, diria Arthur Rimbaud, de uma hedionda beleza, como “Cheguei à terra prometida:/É um deserto cheio de covas”; existem outros em que há “a essência celestial das coisas mortas”, como “O sonho de alguém que já morreu” ou “A palidez de quem já não existe” ; Há, ainda, outros extremamente terrificantes (de um terror, aliás, quase sem par em nossa poesia), como, por exemplo: “Suplício imemorial de quem estando vivo,/A receber no olhar todo o céu compassivo,/ Vê passar o próprio enterro pela porta!” ou “Levanto ao céu os olhos compassivos:/E eis-me contrito e bom, ouvindo as preces/ Que os mortos rezam pelos que estão vivos”. Elemento presente na composição de todos esses diamantes, como se pode observar, é a morte. Soube o poeta mineiro, exceção feita talvez a seu contemporâneo Augusto dos Anjos, explorar como ninguém entre nós essa fértil temática.

Para fruir a poesia de Alphonsus, no entanto, é preciso que se tenha a consciência do garimpeiro, ou seja, a consciência de que uns ínfimos diamantes desentranhados já pagam algumas jornadas inteiras de trabalho, porque diamantes.

Bernardo Souto
Recife, julho de 2007


* “Quando Thiers Martins Moreira era diretor do serviço nacional de teatro pediu-me que traduzisse a Phèdre de Racine. Não anuí. Ele insistiu, insistiu. Afinal me safei com esta: ‘Thiers, se você encontrar alguém que traduza este verso da Phèdre: Le jour n'est pas plus pur que le fond de mon cœur, eu prometo traduzir o resto.’ E expliquei: ‘esse verso é um diamante; eu não sei traduzir diamantes.” (BANDEIRA, Manuel in introdução às Flores das Flores do Mal, de Guilherme de Almeida)

Terça-feira

PERPLEXIDADE


AMAZE


I know
Not these my hands
And yet I think there was
A woman like me once had hands
Like these.



(Adelaide Crapsey)




PERPLEXIDADE

Eu sinto...
Essas mãos não
São minhas. Houve alguém
No passado que as possuiu
Também.


(trad. Bernardo Souto)

Obs.: Minhas traduções não são literais. Tento traduzir aquilo que há de poético no texto de partida.

Quinta-feira

Ângelo Monteiro ou a Poética da Esfinge

O poeta Ângelo Monteiro em meio ao fogo que, a um só tempo, purifica e destrói.
Quadro de Plínio Palhano

por Bernardo Souto

Em meio a um tempo tomado pelas trevas da vulgaridade, tempo em que a busca hedonística de prazeres efêmeros e o culto irracional ao relativismo estético imperam, a poesia surge como um Sol que, a um só tempo, ilumina e norteia o destino dos homens. É por isso que devemos festejar a iniciativa do mestre Ângelo Monteiro, o mais ibérico dos poetas brasileiros contemporâneos, que, por um rasgo de grande generosidade, acaba de presentear o leitor brasileiro com o livro Todas as Coisas têm Língua, volume que reúne, indubitavelmente, o melhor que produziu, em se tratando de poesia, ao longo de mais de quarenta anos de atividade criadora. Mas como navegar em mares tão misteriosos?

O ensaísta Ormindo Pires Filho nos dá uma pista:

A poesia de Ângelo Monteiro é, indiscutivelmente, uma poesia difícil! Misteriosa, sibililina, ela nos lembra algo semelhante ao que os metafísicos ingleses produziram. Quem já leu Donne e Blake entenderá o que estou pretendendo dizer. Mística, impregnada de religiosidade, tocando muitas vezes as fímbrias do sobrenatural, mergulhando outras vezes numa atmosfera que, por estar carregada de extrema luminosidade, nos cega e nos aterroriza. Associemos, portanto, o mistério dos poetas metafísicos ingleses ao misticismo poético de São João da Cruz (Noite Escura e Subida do Monte Carmelo) e de Santa Tereza, a Reformadora (Os sete Castelos da Alma) e teremos a poesia de Ângelo Monteiro.[i]

Embora estas sejam, muito provavelmente, algumas das principais fontes da poética de Ângelo Monteiro (acrescente-se à lista supracitada os sonetos metafísicos de Antero, os poemas místicos de Alphonsus de Guimaraens , a poesia ocultista de Fernando Pessoa – o ortônimo – e a lírica cristã de Jorge de Lima, etc.), tão singular e complexa produção poética transcende toda e qualquer tentativa de exegese logocêntrica. É que em poetas da estirpe de Ângelo Monteiro, aquela concepção novalisiana de que a poesia só pode ser explicada poeticamente parece ser, de fato, a única maneira de se aproximar da esfinge. Assim também o entendeu o próprio poeta:

DA INAUGURAÇÃO DO POEMA

Falar não basta a quem nasceu com o fado
de espalhar a beleza e o dom de amar.
A palavra só vale, se gerar
alguma coisa além do formulado.

De harmônica leveza no traçado,
que seja a frase aérea e linear.
Sem que se deixe nunca de lembrar
que a ordenação não peque pelo enfado.

Lúcido, quanto à forma; e quanto à essência,
que determina a forma do poema,
é mister se elabore em chão de ausência.

Colhendo o inesperado e o pressentido:
pois foi sempre no verso lei suprema
de que só no mistério tem sentido.

(Ângelo Monteiro)

Antonin Artaud , num momento de rara inspiração, parece ter vislumbrado esse mistério de que nos fala Monteiro: “A arte não é a reflexão da vida, mas a vida é a reflexão de um princípio transcendente com o qual a arte nos volta a pôr em contato.”[ii] E a reflexão desse princípio transcendente se dá, na obra poética de Ângelo Monteiro, via transfiguração estético-verbal de uma complexa weltanschauung (cosmovisão, mundividência) Mística. Tal weltanschauung, porque Mística, só pode ser entendida parcialmente e, mesmo assim, através da linguagem simbólica da arte (bom exemplo disso é a poesia de São João da Cruz). Há, portanto, uma dimensão ontológica algo kierkegaardiana na poesia de Ângelo Monteiro, dimensão esta sintetizada de maneira exemplar por Jean-Paul Sartre: “A vida subjetiva, na própria medida em que é vivida, não pode jamais ser objeto de um saber, ela escapa ao conhecimento... Essa interioridade que pretende afirmar-se contra toda filosofia, na sua estreiteza e profundidade infinita (...), eis o que Kierkegaard chamou de existência”[iii] (grifo nosso). A existência, portanto, só pode ser compreendida através de algo que escapa ao conhecimento, e esse algo é precisamente a Fé. Nesse aspecto, “a lei suprema de que [o verso] só no mistério tem sentido” ( para usar as palavras do próprio poeta) nos faz lembrar o misterioso silêncio penhe de sentido de Abraão a caminho do Monte Moriá, que nos é recontado, não por acaso, pelo próprio Søren Kierkegaard, no livro Temor e Tremor. A poesia monteiriana, nessa perspectiva, seria a própria "voz do inefável", para utilizarmos uma expressão de Goethe. Essa concepção de que a ratio logocêtrica é insuficiente para abarcar toda a complexidade da existência é bem ilustrada no soneto abaixo:
Em nosso sol se instala o Inimigo
se afirma em cada passo que o renega
em nossas águas seu negror navega
se esconde em nossa vinha e em nosso trigo.

Ao próprio Amor domina o Inimigo
ao torná-lo mais dócil em paixão cega.
A nossa inteira vida a ele se apega
e contra ele é vão qualquer abrigo.

Das nossas próprias ânsias se sustenta
dos nossos próprios gritos se arrebata
e sua teia é tão longa quanto lenta.

Sempre belo se veste de gerânios
e jovem como a luz - que não tem data
- nos sepulta nos seus subterrâneos.
(Ângelo Monteiro)

Muito teríamos ainda a dizer sobre a poesia de Ângelo Monteiro. No entanto, creio eu, este brevíssimo ensaio tem ao menos o mérito de servir como um razoável esboço para um estudo mais aprofundado que pretendemos fazer sobre a poesia monteiriana num futuro próximo. Otto Maria Carpeaux, certa vez, escreveu em um dos seus iluminados ensaios o seguinte: “Vou construir o meu Graciliano Ramos”. Tentei, com a só fragilidade da palavra humana, construir o meu Ângelo Monteiro. Se o resultado foi satisfatório, só o tempo dirá. Afinal de contas, o tempo é o mais implacável dos juízes.

***

[i] MONTEIRO, Ângelo. Todas as Coisas têm Língua. Recife: CEPE, 2008. pp. 19-20.

[ii] BLAKE, W. Escritos de William Blake. Tradução de Alberto Marsicano e Regina de B. Carvalho , L & PM, Porto Alegre, 1984. p. 37.

[iii] KIERKEGAARD, Søren. “Vida e obra” in Kierkegaard [Coleção Pensadores], Abril Cultural, 1984, pp. IX - X.
*
Ângelo Monteiro no "Café Colombo"/ entrevista:
*
“O que mais chama a atenção em Ângelo Monteiro é a intensidade de sua vivência interior, que o torna um escândalo de autenticidade num universo de fingimento. Ele nunca escreveu uma linha que não viesse carregada daquela ‘high seriousness’ que para Mathew Arnold era a condição primeira da importância estética, e que hoje é uma das condições essenciais para que um escritor valoroso passe despercebido.”
(Olavo de Carvalho)

Sexta-feira

A Queda

Gravura de Gustave Doré

Caros amigos,


Decidi, mais uma vez, mudar o título do meu site. Enquanto Deus me consentir continuarei mudando! Desgraçadamente, não segui o sábio conselho de Quintana: “Nunca dês um nome a um rio: Sempre é outro rio a passar”... Tal mudança, explico, deve-se ao processo de desorientalização que estou vivendo. Sou, custei a acreditar, um ocidental acidentado, para usar a expressão feliz de Marco Lucchesi. Novalis dizia que Spinoza era um "homem intoxicado de Deus”; eu, guardadas as devidas proporções, estava me tornando um homem intoxicado de Zen. Desta forma, fecha-se um ciclo. Longa e proveitosa foi a estadia na casa de mestre Bashô. Migro agora— sem medo, sem remorso, sem saudade— para a casa de Milton, Blake et caterva. Espero ser bem recebido.
Grato pela compreensão.


BERNARDO SOUTO
***

Conheci a Beleza que não morre
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,

Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre;
Assim eu vi o mundo e o que ele encerra
Perder a cor, bem como a nuvem que erra
Ao pôr-do-sol e sobre o mar discorre.

Pedindo à forma, em vão, a idéia pura,
Tropeço, em sombras, na matéria dura,
E encontro a imperfeição de quanto existe.

Recebi o batismo dos poetas,
E, assentado entre as formas incompletas,
Para sempre fiquei pálido e triste.
(Antero de Quental)
Direi: o que o eu-lírico anteriano fala é verdade e mentira, a um só tempo. Explico, concordo com o poeta indiano Kabir: "O Silêncio surgiu antes do Faça-se."
***
"Precisamos de livros que nos afetem como um desastre, que nos magoem profundamente, como a morte de alguém a quem amávamos mais do que a nós mesmos, algo como ser banido para uma floresta longe de todos. Um livro tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós. É nisso que eu creio.”
Franz Kafka, carta a Oscar Pollak, 1904
p.s.: Devo o conhecimento desse kafkiano texto kafkiano ao confrade Alisson da Hora.

Quarta-feira



manhã de neblina
agora é branco
o verde da colina
(Bernardo Souto)
***




gotas d'água
na lâmina do lago
flores de cristal

(Bernardo Souto)
***





leve desliza
a folha no lago
barco de formigas
(Bernardo Souto)

Sexta-feira

METAFÍSICA DAS BORBOLETAS


serão almas
das flores de outrora?
(Bernardo Souto)

O UNIVERSO EM TRÊS VERSOS


O poeta William Blake certamente nada conhecia acerca da literatura japonesa, o que não o impediu, entretanto, de compreender como poucos a essência, a anima do micropoema nipônico:


To see a world in a grain of sand
And a heaven in a wild flower
Hold infinity in the palm of your hand
And eternity in an hour.

(William Blake)

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O VAGA-LUME E O RELÂMPAGO DO HAIKAI


o vaga-lume
— ó,
quase eu disse
mas estava só

(Taigi, trad. Paulo Leminski)


Um ocidental ocidental (ocidental acidentado, diria Marco Lucchesi) provavelmente diria que a linguagem do haikai acima é pobre em metáforas.E o diria por quê? Sobretudo por ignorância acerca da cultura do Extremo Oriente. É que aos olhos de um ocidental ocidental — que desconhece noções basilares do éthos japonês como o satori — o "vaga-lume" do poema acima é apenas um intrigante inseto semelhante a uma esmeralda de fogo.

Bem, não sou um expert em cultura japonesa, mas não tenho grandes dificuldades em interpretar "vaga-lume" como metáfora do satori , e o haikai como metonímia (microcosmo) da repentina Revelação.

***


Outra metáfora bastante feliz para satori é relâmpago. É que o raio subitamente transforma, mesmo que por miléssimos de segundo, a noite em dia. Desta meneira, desvela o outrora velado.

tudo claro
ainda não era dia
era apenas o raio


(Paulo Leminski)

A aura do haikai, portanto, é fundamentalmente religiosa. Religiosa, contudo, na acepção mais oriental do termo, isto é: panteísta, xintoísta, taoísta e, sobretudo, zen-budista.

Quarta-feira

O ESPANTO DA ORIGEM


A poesia - toda - é uma viagem ao desconhecido. (Maiakóvski)


A Poesia, segundo o poeta pré-romântico Novalis, é "a religião original da humanidade". Entenda-se "religião" no sentido etimológico do termo, ou seja, no sentido de religare (ligar novamente, atar novamente). A poesia então, dentro desta perspectiva, seria a busca do elo perdido com o Incognoscível, com a Verdade Original.O filósofo Bertrand Russell, por exemplo, defende tese bem parecida: para Russell a poesia é um ser que vive entre as esferas da Filosofia e da Teologia, tangenciando e nutrindo-se de ambas. Já o escritor argentino Jorge Luis Borges não enxerga distinção entre Poesia e Metafísica. Portanto os três, cada um ao seu modo, concebem o fenômeno poético como algo que não pode ser meramente circunscrito aos ditames da racionalidade.
No Japão Ancestral, a Poesia era tida como sagrada, como verbalização da experiência mística. Era, por assim dizer, a própria expressão verbal do satori (palavra japonesa que significa, grosso modo, iluminação metafísica). Forma poemática nipônica mais conhecida pelos ocidentais, o hai-kai é uma dos vários caminhos para a manifestação da experiência Zen. E o que seria, afinal, experiência Zen? As palavras de Murillo Nunes de Azevedo podem, mesmo que debilmente (visto que a linguagem jamais será capaz de abarcar toda a complexidade do mundo), ajudar-nos a entender/ sentir:



é preciso a todos os momentos cultivar o silêncio como planta tenra, para que possamos encontrar a solidão no meio do mundo. Cada objeto, cada ser, cada instante é um mistério pleno de significação. Debaixo da superfície das coisas está a base última onde elas se encontram. Cada uma delas é um caminho aberto com aquele que as sustém em sua grandeza infinita. O encontro é um ato de silêncio. Pois não há participação sem silêncio. Silêncio da fonte que brota no deserto. Do Lótus que desabrocha. Da lágrima que escorre. Tudo se resume, então, segundo o Zen, na busca de silêncio no meio de um universo de ruídos. (Zen e as Aves de Rapina. São Paulo, Ed.Cultrix, 1970, p.14).



Posto o quê, podemos, creio eu, compreender melhor o poema que se segue:


verde a árvore caída
vira amarelo
a última vez na vida


(Paulo Leminski)


Analisando o hai-kai acima à luz da teoria defendida por Chklovski no ensaio A Arte como Procedimento, concluímos que o processo de singularização do objeto (a árvore, no caso do poema em análise) utilizado por Leminski dá-se por meio de uma descrição insuspeitada de um fato aparentemente banal (a saber, a queda de uma árvore). Assim, através da desautomatização do olhar - desautomatização esta deflagrada pelo acréscimo de uma informação nova (de cunho dramático) no último verso do poema -, o poeta transforma um acontecimento aparentemente corriqueiro em Poesia. O êxito estético do poema, portanto, deve-se menos à percepção por parte do poeta de que as folhas mudam sazonalmente de tonalidade que propriamente àquilo que Maurice Merleau-Ponty - retomando, ao seu modo, a noção de ‘estranhamento’ (ostranienie) dos formalistas russos - chama de "retorno à experiência do espanto original". Em suma, poeta nos faz, para utilizar uma expressão de Oswald de Andrade, "ver com os olhos livres", provocando, assim, uma quebra no horizonte de expectativa do leitor que o transporta à ‘epifania’ do satori.



Corvos
Nos galhos curvos:
Únicas folhas.
(Cláudio Feldman)

Sexta-feira

BORGES, EL ORIENTAL


De la salvación por las obras
Jorge Luis Borges; María Kodama:Atlas. 1ra ed. Buenos Aires, Sudamericana, 1984.


En un otoño, en uno de los otoños del tiempo, las divinidades del Shinto se congregaron, no por primera vez, en Izumo. Se dice que eran ocho millones pero soy un hombre muy tímido y me sentiría un poco perdido entre tanta gente. Por lo demás, no conviene manejar cifras inconcebibles. Digamos que eran ocho, ya que el ocho es, en estas islas, de buen agüero.
Estaban tristes, pero no lo mostraban, porque los rostros de las divinidades son kanjis que no se dejan descifrar. En la verde cumbre de un cerro se sentaron en rueda. Desde su firmamento o desde una piedra o un copo de nieve habían vigilado a los hombres. Una de las divinidades dijo:
Hace muchos días, o muchos siglos, nos reunimos aquí para crear el Japón y el mundo. Las aguas, los peces, los siete colores del arco, las generaciones de las plantas y de los animales, nos han salido bien. Para que tantas cosas no los abrumaran, les dimos a los hombres la sucesión, el día plural y la noche una. Les otorgamos asimismo el don de ensayar algunas variaciones. La abeja sigue repitiendo colmenas; el hombre ha imaginado instrumentos: el arado, la llave, el calidoscopio. También ha imaginado la espada y el arte de la guerra. Acaba de imaginar un arma invisible que puede ser el fin de la historia. Antes que ocurra ese hecho insensato, borremos a los hombres.
Se quedaron pensando. Otra divinidad dijo sin apuro:
Es verdad. Han imaginado esa cosa atroz, pero también hay ésta, que cabe en el espacio que abarcan sus diecisiete sílabas.
Las entonó. Estaban en un idioma desconocido y no pude entenderlas.
La divinidad mayor sentenció:
Que los hombres perduren.
Así, por obra de un haiku, la especie humana se salvó.






Diecisiete haiku
La cifra, 1ra ed. Buenos Aires, Emecé, 1981. 1ra ed. Madrid, Alianza Editorial, 1981. Col. Alianza Tres, 159.


1
Algo me han dicho
la tarde y la montaña.
Ya lo he perdido.

2

La vasta noche
no es ahora otra cosa
que una fragancia.

3

¿Es o no es
el sueño que olvidéantes
del alba?

4

Callan las cuerdas.
La música sabíalo
que yo siento.

5

Hoy no me alegranlos
almendros del huerto.
Son tu recuerdo.

6

Oscuramente
libros, láminas, llaves
siguen mi suerte.

7

Desde aquel día
no he movido las pieza
sen el tablero.

8

En el desierto
acontece la aurora.
Alguien lo sabe.

9

La ociosa espada
sueña con sus batallas.
Otro es mi sueño.

10

El hombre ha muerto.
La barba no lo sabe.
Crecen las uñas.

11

Ésta es la manoque
alguna vez tocaba
tu cabellera.

12

Bajo el alero
el espejo no copia
más que la luna.

13

Bajo la luna
la sombra que se alarga
es una sola.

14

¿Es un imperio
esa luz que se apaga
o una luciérnaga?

15

La luna nueva
ella también la mira
desde otro puerto.

16

Lejos un trino.
El ruiseñor no sabe
que te consuela.

17

La vieja mano
sigue trazando versos
para el olvido.








Tankas

El oro de los tigres, 1ra ed. en OP. Buenos Aires, Emecé, 1972. Col. Obra poética de Borges


1

Alto en la cumbre
todo el jardín es luna,
luna de oro.
Más precioso es el roce
de tu boca en la sombra.

2

La voz del ave
que la penumbra esconde
ha enmudecido.
Andas por tu jardín.
Algo, lo sé, te falta.

3

La ajena copa,
la espada que fue espada
en otra mano,
la luna de la calle,
¿dime, acaso no bastan?


4

Bajo la luna
el tigre de oro y sombra
mira sus garras.
No sabe que en el alba
han destrozado un hombre.

5

Triste la lluvia
que sobre el mármol cae,
triste ser tierra.
Triste no ser los días
del hombre, el sueño, el alba.

6

No haber caído,
como otros de mi sangre,
en la batalla.
Ser en la vana noche
él que cuenta las sílabas.

Quinta-feira

FANOPÉIA

Tabi

o vento
açoita
bambus:

dançam
sombras.

no caule
da vagem,
o orvalho

resvala
na lua.

o gato
imita
o tigre:

rumor
de aves.

brancas
geleiras
lácteas:

o colo
do cisne.

o fuji
apunhala
a névoa:

fiapos
de branco.

no sonho,
o monge
em viagem:

tudo
é miragem.

(Claudio Daniel - Yumê)

Sexta-feira

A LUA DE AUSCHWITZ


lua à vista
brilhavas assim
sobre auschwitz?


(Paulo Leminski)

Sábado

BASHÔ E AS CIGARRAS ETERNAS



Yagate shinu
Keshiki wa miezu
Semi no koe


(Matsuó Bashô, original japonês)

***

Tradução do Manuel Bandeira:

A cigarra...ouvi:
Nada revela em seu canto
Que ela vai morrer.


***

Minhas versões (transcriações):

I

O solo da cigarra
Nem parece
A música da morte

II

RÉQUIEM

A cigarra...vê:
Pouco se lixa
Que irá morrer


Freud dizia que a principal causa da angústia humana é o temor em relação à morte.Mas a idéia de morte,evidentemente, só existe para quem está vivo (acho que Epicuro escreveu algo parecido)...A aceitação de que a morte é uma certeza inexorável faz-se essencial, creio, para o expurgo de nossas angústias.

Para a cigarra de Bashô a efemeridade eterna do Último Canto faz da morte iminente muito mais que o desenlace definitivo, faz do Último Canto o ÁPICE de toda a existência. Pena que poucos compreendam a dimensão cósmica do Canto das cigarras...

MÚSICA QUE SE FAZ COM IDÉIAS




Tão grande árvore
da semente pequenina
-uma árvore!


(Américo Pellegrini Filho)


Poesia é "música que se faz com idéias", diz-nos com muita propriedade Ricardo Reis.o poeta Américo Pellegrini teve uma idéia de rara perspicácia, mas não soube transformá-la em música.É que para que o haikai não se esfarele, é vital que haja aquele "campo de força sonoro", de que nos fala o eminente teórico alemão Emil Staiger.Então, despretensiosamente, resolvi reelaborar o poema, tentando a um só tempo torná-lo musical e conservar sua 'anima',ou seja, aquilo que faz do poema Poesia.Eis o resultado:

A semente, vê!
Tão pequenina
E virou Ipê!

Quinta-feira

A FLAUTA MÁGICA DE LI TAI PO



DUAS FLAUTAS

Uma noite em que eu respirava o perfume das flores
à beira do rio,
o vento trouxe-me a canção de uma flauta distante
Para responder-lhe, cortei um ramo de salgueiro
e a canção de minha flauta embalou a noite encantada.

Desde então, todos os dias,
à hora em que o campo adormece,
os pássaros ouvem a conversa
de dois pássaros desconhecidos,
cuja linguagem, no entanto, compreendem.


(Li Po, trad. Cecília Meireles)


A obstinada busca do Sublime.A convicção de que o simples não constitui senão o derradeiro estágio do complexo.Eis a grande mensagem de Li Tai Po, o maior poeta chinês de todos os tempos.Reza a lenda que morreu afogado num lago, tentando apanhar a imagem da lua refletida nas águas.Ofereço esta humilde postagem a Li Tai Po (701-762): poético até no último dos gestos.

Segunda-feira

LÍRIO D'ÁGUA


pouso das garças
lago branco
lírios de água
(Jacineide Travassos)

Sábado

MAKE IT NEW!


In letters of gold on T'ang's bath-tub:

AS THE SUN MAKES IT NEW
DAY BY DAY MAKE IT NEW
YET AGAIN MAKE IT NEW

Confucius, The Great Digest, tradução de Ezra Pound

RENOVAR
DIA SOL
A
SOL DIA
RENOVAR

recriação de Augusto de Campos


Meus amigos, meus inimigos: nem todo haicaísta é poeta. E por que não o é? Não é difícil explicar. Bem... O micropoema japonês, após o traslado para o Brasil, transformou-se, infelizmente, no mais das vezes, num pálido maquequear do estilo dos mestres japoneses! Numa fôrma (sic) puramente MANEIRISTA e de soluções POUCO ENGENHOSAS... Haicaístas brasileiros, pelo amor dos Kamis, sigam o poundiano conselho de Augusto de Campos: "se não posso renovar, calo-me”! Vou repetir: "se não posso renovar, calo-me"! Make it new! Make it new! Pois é precisamente a singularidade do estilo uma das marcas registradas da grande Arte. De que adianta tentar escrever à maneira de Bashô, Buson ou Issa? A época é outra, o país também é outro!... Se não quiserem seguir o exemplo de um Paulo Leminski, este reinventor do haicai por excelência, sigam o exemplo do menos conhecido (mas não inferior) português Albano Martins... Tenham certeza: ninguém escreve melhor à maneira dos japoneses do que os próprios japoneses!

Quinta-feira

ALBANO MARTINS HAICAÍSTA

O poeta português Albano Martins




Um mar azul
pintou de branco
o vôo das gaivotas


*


No inverno,
a árvore pede à neve :
- Agasalha-me!


*


Nem sempre a neve
cai do céu : às vezes,
explode numa flor.


*


No bico do melro
a natureza celebra
o triunfo do verão.


*


O verão deixa,
como herança, ao outono
um leque de folhas secas.


*

Castanha é a cor
do sorriso
do ouriço.


*

Pelos corredores
do outono passam
as folhas, nuas.


*

O mocho traz nos olhos,
escondido, um sol.
Com ele,incendeia a noite.


*

A andorinha faz
a sua casa
no vento.


*

O papagaio sabe
que o silêncio deixa
um nó na garganta.

Terça-feira



Estalactites.
Lágrimas da terra
quando chora por dentro.

(Saulo Mendonça)

Sábado



no mesmo galho
uma formiga a passeio
outra a trabalho


(Ricardo Silvestrin)