O poeta Ângelo Monteiro em meio ao fogo que, a um só tempo, purifica e destrói.Quadro de Plínio Palhano
por Bernardo Souto
Em meio a um tempo tomado pelas trevas da vulgaridade, tempo em que a busca hedonística de prazeres efêmeros e o culto irracional ao relativismo estético imperam, a poesia surge como um Sol que, a um só tempo, ilumina e norteia o destino dos homens. É por isso que devemos festejar a iniciativa do mestre Ângelo Monteiro, o mais ibérico dos poetas brasileiros contemporâneos, que, por um rasgo de grande generosidade, acaba de presentear o leitor brasileiro com o livro
Todas as Coisas têm Língua, volume que reúne, indubitavelmente, o melhor que produziu, em se tratando de poesia, ao longo de mais de quarenta anos de atividade criadora. Mas como navegar em mares tão misteriosos?
O ensaísta Ormindo Pires Filho nos dá uma pista:
A poesia de Ângelo Monteiro é, indiscutivelmente, uma poesia difícil! Misteriosa, sibililina, ela nos lembra algo semelhante ao que os metafísicos ingleses produziram. Quem já leu Donne e Blake entenderá o que estou pretendendo dizer. Mística, impregnada de religiosidade, tocando muitas vezes as fímbrias do sobrenatural, mergulhando outras vezes numa atmosfera que, por estar carregada de extrema luminosidade, nos cega e nos aterroriza. Associemos, portanto, o mistério dos poetas metafísicos ingleses ao misticismo poético de São João da Cruz (Noite Escura e Subida do Monte Carmelo) e de Santa Tereza, a Reformadora (Os sete Castelos da Alma) e teremos a poesia de Ângelo Monteiro.[i]
Embora estas sejam, muito provavelmente, algumas das principais fontes da poética de Ângelo Monteiro (acrescente-se à lista supracitada os
sonetos metafísicos de Antero, os poemas místicos de Alphonsus de Guimaraens , a poesia
ocultista de Fernando Pessoa –
o ortônimo – e a lírica cristã de Jorge de Lima, etc.), tão singular e complexa produção poética transcende toda e qualquer tentativa de exegese logocêntrica. É que em poetas da estirpe de Ângelo Monteiro, aquela concepção novalisiana de que a poesia só pode ser explicada poeticamente parece ser, de fato, a única maneira de se aproximar da esfinge. Assim também o entendeu o próprio poeta:
DA INAUGURAÇÃO DO POEMA
Falar não basta a quem nasceu com o fado
de espalhar a beleza e o dom de amar.
A palavra só vale, se gerar
alguma coisa além do formulado.
De harmônica leveza no traçado,
que seja a frase aérea e linear.
Sem que se deixe nunca de lembrar
que a ordenação não peque pelo enfado.
Lúcido, quanto à forma; e quanto à essência,
que determina a forma do poema,
é mister se elabore em chão de ausência.
Colhendo o inesperado e o pressentido:
pois foi sempre no verso lei suprema
de que só no mistério tem sentido.
(Ângelo Monteiro)
Antonin Artaud , num momento de rara inspiração, parece ter vislumbrado esse mistério de que nos fala Monteiro:
“A arte não é a reflexão da vida, mas a vida é a reflexão de um princípio transcendente com o qual a arte nos volta a pôr em contato.”[ii] E a reflexão desse princípio transcendente se dá, na obra poética de Ângelo Monteiro, via transfiguração estético-verbal de uma complexa
weltanschauung (
cosmovisão,
mundividência) Mística. Tal
weltanschauung, porque Mística, só pode ser entendida parcialmente e, mesmo assim, através da linguagem simbólica da arte (bom exemplo disso é a poesia de São João da Cruz). Há, portanto, uma dimensão ontológica algo kierkegaardiana na poesia de Ângelo Monteiro, dimensão esta sintetizada de maneira exemplar por Jean-Paul Sartre:
“A vida subjetiva, na própria medida em que é vivida, não pode jamais ser objeto de um saber, ela escapa ao conhecimento... Essa interioridade que pretende afirmar-se contra toda filosofia, na sua estreiteza e profundidade infinita (...), eis o que Kierkegaard chamou de existência”[iii] (grifo nosso). A existência, portanto, só pode ser compreendida através de algo que
escapa ao conhecimento, e esse
algo é precisamente a Fé. Nesse aspecto,
“a lei suprema de que [o verso]
só no mistério tem sentido” ( para usar as palavras do próprio poeta) nos faz lembrar o misterioso silêncio penhe de sentido de Abraão a caminho do Monte Moriá, que nos é recontado, não por acaso, pelo próprio Søren Kierkegaard, no livro
Temor e Tremor. A poesia monteiriana, nessa perspectiva, seria a própria "voz do inefável", para utilizarmos uma expressão de Goethe. Essa concepção de que a
ratio logocêtrica é insuficiente para abarcar toda a complexidade da existência é bem ilustrada no soneto abaixo:
Em nosso sol se instala o Inimigo
se afirma em cada passo que o renega
em nossas águas seu negror navega
se esconde em nossa vinha e em nosso trigo.
Ao próprio Amor domina o Inimigo
ao torná-lo mais dócil em paixão cega.
A nossa inteira vida a ele se apega
e contra ele é vão qualquer abrigo.
Das nossas próprias ânsias se sustenta
dos nossos próprios gritos se arrebata
e sua teia é tão longa quanto lenta.
Sempre belo se veste de gerânios
e jovem como a luz - que não tem data
- nos sepulta nos seus subterrâneos.
(Ângelo Monteiro)
Muito teríamos ainda a dizer sobre a poesia de Ângelo Monteiro. No entanto, creio eu, este brevíssimo ensaio tem ao menos o mérito de servir como um razoável esboço para um estudo mais aprofundado que pretendemos fazer sobre a poesia monteiriana num futuro próximo. Otto Maria Carpeaux, certa vez, escreveu em um dos seus iluminados ensaios o seguinte: “Vou construir o meu Graciliano Ramos”. Tentei, com a só fragilidade da palavra humana, construir o meu Ângelo Monteiro. Se o resultado foi satisfatório, só o tempo dirá. Afinal de contas, o tempo é o mais implacável dos juízes.
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[i] MONTEIRO, Ângelo. Todas as Coisas têm Língua. Recife: CEPE, 2008. pp. 19-20.
[ii] BLAKE, W. Escritos de William Blake. Tradução de Alberto Marsicano e Regina de B. Carvalho , L & PM, Porto Alegre, 1984. p. 37.
[iii] KIERKEGAARD, Søren. “Vida e obra” in Kierkegaard [Coleção Pensadores], Abril Cultural, 1984, pp. IX - X.
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Ângelo Monteiro no "Café Colombo"/ entrevista:
“O que mais chama a atenção em Ângelo Monteiro é a intensidade de sua vivência interior, que o torna um escândalo de autenticidade num universo de fingimento. Ele nunca escreveu uma linha que não viesse carregada daquela ‘high seriousness’ que para Mathew Arnold era a condição primeira da importância estética, e que hoje é uma das condições essenciais para que um escritor valoroso passe despercebido.”
(Olavo de Carvalho)