Quarta-feira

A Obra-Prima de César Leal

O poeta e ensaísta César Leal



A ORIENTAL SAFIRA

La gloria di colui Che tutto move
faz ondular no céu o seu rebanho
--limpos diamantes a girar na luz--
rugem vulcões nos abissais do mar,
treme o horizonte quase a rebentar,
ouço o rumor da nuvem que se move.

Sobre minh’alma agora em cruz
penetram sombras altas como a noite,
trazendo aos sonhos só águas barrentas,
onde fixos estão alvos secretos,
do firmamento os seus mais altos tetos,
rubros cristais no azul do mar só luz.

A sombra me conduz a outras paisagens,
a Montanha de Kaf (cerca a Terra),
os rios, os ciprestes inclinados,
as cidadelas brancas onde a Morte
joga com seu punhal e afina o corte,
levando a todos a cruel mensagem.

Alvos astros ao sul desenham a cruz,
enquanto o Tempo vai medido em anos,
e céu e mar ocultam seus mistérios!
Sinto que o dia avança e leva a face
que mostra ao mundo o seu olhar fugace
--a Terra argila azul banhada em luz.

Vencido o nevoeiro chego ao ponto
onde são vistas brisas na folhagem
e aves a construir os altos ninhos...
a música do Sol no sentimento
me faz chegar à voz um canto lento
de cujas notas sou o contraponto.

Vejo no Limbo a trágica beleza...
o passado que volta é só lembrança
do Planeta banhado pelo Sol.
Sinto Francesca o Amor que fez maldita
a tua sorte expressa em fala aflita
neste lar onde o Tempo é só tristeza.

No Flagetonte um Sábio me aconselha
a não parar às margens desse rio
onde as águas ardentes brotam chamas!
Reconhecendo aquela voz amiga,
lembro, é meu mestre nesta casa antiga
que tem o firmamento como telha.

E conversamos como antigamente,
nada direi do rosto requeimado,
que vejo em fogo --máscara de brasas--
aceito o que me diz, muito o admiro,
das lições que me dá conclusões tiro:
tem violinos na voz eternamente...

Aos sólios do solstício eis-me lançado
e de seu trono em calma fito o mundo
com tantas lutas e ódios tão ferozes,
arranco a voz todo falar futuro,
as trevas já me rondam feitas muro
--subitamente vejo-me cercado.

O Tempo ao mundo vai ficando espesso,
a suave luz do mar no mar se oculta
e o canto muda em notas de aspereza,
Enéias busca a gruta da Sibila,
a precisão do Oráculo destila,
a flecha acerta Dido no arremesso.

Lança-se ao mar no lenho a recordar
as Portas de Marfim vistas no sonho
apaziguando velhas cicatrizes!...
e lembra Tróia a guerra não vencida,
a Ílion de altos muros jaz perdida
sem Dido novo reino vai fundar.

Como no palco as vozes vão subindo
e o semblante do coro vai baixando
até que da platéia chega o aplauso...
Assim sobe na morte o sol futuro
e baixa as duras pedras deste muro
quando da vida o tempo for fugindo!

A brisa, a planta, a folha, a rosa, o fim,
a brasa, a vela, a dança, a nuvem, o ar,
a vaga, a ilha, a selva, o lago, a cinza,
o promontório, a pluma, o vôo, a asa,
a forma, o Sol, e novamente a brasa,
a voz do amor, o cósmico marfim.

Qual braseiro coberto pelas cinzas
ao sopro matinal mostra o rubor
que no sono das brasas se ocultava,
o sono assim ferido pela voz
desperta esse braseiro oculto em nós
e lança no ar da tarde suas cinzas.

Flóridas águas, onduladas cores
que a forma toma de claras vogais
saltando limpas de exiladas vozes...
Sobre o horizonte da linguagem chove
azulada neblina que se move
levando águas à terra e à vida amores.

A cruz no azul do céu do meu país
que aumenta a Fé no sonho dos meninos
-- meridionais na morte e nascimento –
é lampadário ao Sul que a noite acende
e seu desenho pelo céu resplende
simbolizando a força que Deus quis.

A eterna luz no olhar é puro engano,
uma ilusão que as flores negariam
ao se inclinar no caule a cada tarde,
a Ursa em seu voar deseja menos,
ainda que tenha a altura que não temos
nem mede seu viver ano por ano!

Mas a treva nos cerca como o Tempo
nessa rodar veloz das estações
que vão mudando a fala das crianças,
até que nosso corpo verga ao peso
que atrai do jovem olhar pena e desprezo
e a mente nega forma ao pensamento.

A sombra é sono, o sono esmaga a mente
com sonhos-pesadelos de quem sofre
nos campos do sonhar sono sem fim
onde o sonho no sono aponta a morte
e a Morte ao produzir seu fundo corte
recorda o sono forte a toda gente.


Se a vida foi ao homem consentida,
as coisas que as virtudes aniquilam,
vivê-las plenamente todos querem...
Mas quem foi para a morte destinado
e o mais que fez ficou no já passado
a vida pouco vale em ser vivida!

Prateadas vozes, luminosos dedos,
neblina azul no fundo azul das águas,
pés orvalhados, alvos tornozelos!...
Olhar pesado e cego ao céu profundo,
Deixar o lar, o mar, o sol, o mundo
--saber-se unido ao sono dos rochedos.

Cego leopardo! Garra de leão,
exasperante loba no poente,
cascavel ébria que me habita os sonhos,
é o sono quem nos governa o futuro,
eu sei que tudo é pó, é pedra, é muro,
nem sombra ficará, tudo é carvão.

As belas formas jazerão sem cores,
feitos de lírios pareciam os dedos,
dentro das tumbas soltas cabeleiras,
antes do pó é limo o corpo todo,
o ventre claro agora é pardo lodo
hormônio e sangue alimento das flores.

A
voce pelo céu resplende e canta,
em seu delírio de neblina e sombra,
topázio triste que consola os campos...
Os ramos pesam sobre o caule e a Terra
sustenta o sol nas asas dessa guerra
onde a voz de Spandau o mundo espanta.

Do Templo das palavras me retiro
Para deixar no mundo esta linguagem
que se diz muito, pouco ainda diria!
No céu, eis o luzeiro constelado
e todo o alvorecer vejo banhado
na doce cor
d’oriental zaffiro.




***
LEAL, César. "A Oriental Safira". In: Tempo e vida na Terra. Rio de Janeiro: Imago, 1998. p. 201-205

p.s.: Leiam o brilhante prólogo do poeta e ensaísta Weydson Leal ao poema "A Oriental Safira".

LEAL, Weydson. "O garimpeiro de Dante".In: LEAL, César.' Tempo e vida na Terra'. Rio de Janeiro: Imago, 1998. p. 195-200

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