Quarta-feira

Resposta de Jacineide Travassos ao sr. Wellington de Melo

Performance do Urros Masculinos na Freeporto (fotografia de Felipe Ferreira)



CARTAS PERNAMBUCANAS




CARTA -ENSAIO (2ª)

‎"porque só o raro me interessa, na era da banalidade."
( Letra Negra - Claudio Daniel)

"Uma forma de o medíocre convencido imitar a grandeza é não dizer mal de ninguém." (Vergílio Ferreira)

"De resto, sempre amei a dificuldade, pois a facilidade é o automatismo -- o que se faz sem pensar." (Paul Valéry, Cahiers.)


O FESTIM, O EXCÊNTRICO E O HUMOR

Em resposta à menção ao meu nome em Carta de Wellington de Melo a Fábio Andrade, definitivamente



Caro sr. Wellington de Melo,

No início da sua carta, há o recorte de um post que diz ter colhido no mural do Facebook do poeta e crítico literário Fábio Andrade. Como o texto era muito pequeno, notei que o subtraiu de um comentário e não do referido post, que é a proposição mais importante da discussão. Desse modo, resolvi trazê-lo a público na íntegra, porque a crítica séria deve ser feita com transparência. Ao modo de uma pensata, recortou, estrategicamente, o assunto que lhe interessava discutir (Freeporto), deixando de fora o que há de mais importante para o debate. Leiamos o que postou Fábio Andrade:

“O texto de Eduardo César Maia, publicado na Eita 4, é arguto e sensível. É impossível não enxergar a pertinência desse texto. As reações a ele significam que, muitas vezes, os discursos mais aparentemente "progressistas" estão muito pouco abertos ao diálogo e à diferença. Sim, uma parte do banquete está estragada sim. Ninguém porém saberá dizer ainda se o meu ou o seu quitute é o algo de podre no reino da Dinamarca."(Fábio Andrade)


A partir do texto comentado, escrito pelo jornalista e crítico Eduardo Maia, que o sr. faz várias ressalvas na tentativa de invalidá-lo, o poeta e crítico Fábio Andrade é categórico quando diz que “uma parte do banquete está estragada”, mas não afirma qual lado exala o “algo de podre”, não só do reino da Dinamarca, pátria de Hamlet, mas, sobretudo, do reino da nossa Veneza Brasileira. Fábio Andrade se vale de evidentes metáforas para aludir não só à produção artística local, mas a posicionamentos relativos às categorias ideológicas e estéticas dos artistas e alguns “críticos” em Recife. Embora o raio dessa discussão alcance maior amplitude do que possa oferecer o espaço de nossa cidade e dessa carta. Fábio Andrade, creio, não foi assertivo, sobre “o algo de podre no reino da Dinamarca” para promover o debate, pois onde há afirmação, não se propõe, claramente, discussão. Contudo, Fábio Andrade, como poeta e crítico, tem posições estéticas bem definidas e disse, em carta que lhe foi endereçada, que guarda muitas afinidades estéticas não só comigo, mas também com o poeta e crítico Bernardo Souto, o que muito nos honra porque o admiramos.

Sobre esse banquete estragado, respondi, também através de um comentário ao post de Fábio Andrade, que aposto no meu lado do banquete porque escolhi os ingredientes com cuidado e os convivas também. Afirmei, e mantenho, que o outro lado da mesa, ou seja, grupos como Urros Masculinos, que integram e promovem festas literárias como a Freeporto, entre outras, têm aderido à estética do vale tudo e ao humor fácil: não querem leitores, querem plateias. Caminho equívoco para quem pretende ser artista sério, estendendo minha opinião ao vasto campo das artes. Quais os convivas que escolhi para sentarem-se à minha mesa e afirmar, como Barthes, que onde há saber tem-se sabor e não odor? Em breve responderei a essa pergunta. Roland Barthes elucida que sabor e saber têm a mesma etimologia no latim. Nietzsche referenda que a palavra grega que designa o sábio - sisyphos = homem de gosto apurado - prende-se etimologicamente a sapio, eu saboreio, sapiens, o degustador. Criticar, desde os mármores da Grécia, significa degustar para discernir!

Abro as cortinas do Facebook, meio ao qual o sr. não confere validade à argumentação crítica, porque diz tratar-se de uma rede social feita para “mexericos”, e ponho em cena as considerações que fez a meu respeito em retaliação ao meu comentário negativo a uma “performance” do Urros Masculinos:



Em uma das intervenções pelo Facebook, a professora Jacineide Travassos teceu críticas sobre a apresentação do Urros no A letra e a Voz, “Terrorismo Semiótico”, que aconteceu na Rua da Moeda. Disse ela:



'Fiquei consternada quando fui ao Festival de Literatura Recifense e em lugar da Literatura encontrei um senhor com um pano envolvendo o rosto e a cabeça, dramatizando o papel de um “terrorista semiótico”. Todos riam, você (Johnny Martins) estava ao meu lado e sabe que Literatura não é circo. Só tenho a lamentar!!!


Jacineide Travassos, em post do Facebook”

Digo que mantenho os meus argumentos e escrevo para fundamentá-los. Antes esclareço que fui ao Festival, na ocasião do lançamento da Revista Eita4!, a convite de Heloísa Arcoverde e Cristhiano Aguiar, pessoas que conheço de perto e estimo, e que são os principais organizadores do evento. De modo que o meu posicionamento não teve por objetivo criticar pessoas, mas ideias e consecuções. Ressalto inclusive que Johnny Martins, como resposta ao post que consta no mural de Bernardo Souto e que ele dever ter julgado ser uma provocação, foi o primeiro a depositar no nosso mural o link do Blog NotaPE, no qual havia escrito um texto em que lia criticamente a obra de Miró da Muribeca. Fez isso não para nos instruir, mas para nos inibir, creio! Será que isso demonstra a atitude de respeito à diversidade que tanto pregam? O jornalista Cristiano Ramos (NotaPE) também apareceu em nossos murais para nos cobrar satisfações, logo ele que diz advogar há mais de dez anos o direito pleno à liberdade de voz. Isso me leva a convalidar os argumentos de Fábio Andrade, quando referenda que o discurso politicamente correto, “aparentemente progressista”, é o mais radical e o menos aberto ao diálogo.

O sr. disse, também, que nós, “os críticos facebookeanos”, não tínhamos argumentos para fundamentar nossas análises. Está no blog “Tango Argentino” o texto escrito sobre Miró da Muribeca que tanto desafiaram Bernardo Souto a escrever. Mas isso não é o bastante, pois querem nos obrigar a aceitar e digerir toda a parte estragada do banquete silenciados. O fartum de peixe espalha-se no ar tentando nos convencer de que nós, que não somos adeptos da estética do vale tudo e nem da “Escola do Ressentimento”, que um crítico do porte de Harold Bloom tanto repudia, somos Policarpos Quaresmas ou Macunaímas, os “herois deslocados” ou "sem caracteres”. O sr. e o seu grupo não nos dominam e não vão nos impedir de realizar nossa crítica e os nossos gostos. Sou poeta por ofício, bacharel em Crítica Literária (UFPE), mestra em Teoria Literária (UFPE/USP), e doutoranda em Literatura e Cultura: Estudos Comparados pela UFPB, o que me permite ter uma formação estética para opinar! E digo que o Deus ex machina não lhe cabe imputar nem a mim e nem às pessoas sérias e inteligentes que ainda, escassamente, transitam longe do seu banquete ou do de Trimalquião!

Permita-me dizer, ao sr. e a Johnny Martins, que prefiro João Cabral e Herberto Helder, autores que estão no corpus da minha tese, a Miró da Muribeca. E se gostar mais de Helder do que de Miró da Muribeca é ser eurocêntrica, faço minhas as palavras de Bernardo Souto, prefiro ser eurocêntrica! Referendo que não desprezo a arte popular, pois muito admiro e, inclusive, trabalho com os meus alunos os cordéis de Patativa do Assaré. Ele também pobre como Miró da Muribeca, até mais pobre e com menos recursos, semi-analfabeto, esforçou-se para ler os grandes poetas da nossa língua. Admiravelmente, o autor da “vaca estrela e do boi fubá” faz-nos dialogar, devido ao ritmo que imprime aos seus versos, com a cadência de um Camões e de um Gonçalves Dias, por exemplo. Isso já é consabido pelos críticos. A esse efeito de construção e percepção chamo de arte séria e de educação estética. Sem ofender a pessoa de Miró da Muribeca, digo que tenho um olhar muito mais crítico do que Fábio Andrade, que muito admiro, quando julga o "poeta" da Muribeca. Não percebo nele a força criativa oral e gestual que tanto caracteriza a fina-flor da poesia popular. Se o próprio Miró reconhece que seu texto escrito não possui a mesma qualidade de quando o recita, entendo que sua performance oral e gestual deve ser também revisada, pois todos os seus "poemas" são recitados e gestualizados de maneira quase igual, dando-nos a sensação de uma voz monocórdica, “maneirista” e gestualmente muito previsível, pois os trejeitos se repetem ad infinitum. Falta ao “eu lírico” oral de Miró da Muribeca a devida cor emocional, que Patrice Pavis considera fundamental para que o ator/performer possa conferir qualidade ao seu trabalho. E no fim da apresentação, o que seria experiência estética aponta para o riso herdeiro apenas do humorismo fácil. O próprio Miró da Muribeca já se denominou um ‘alegrista’, afirmando que o objetivo da sua "poesia" é fazer rir. Vale salientar que se sua "poesia" não assegura grande valor enquanto arte verbal, concluo que, quando o declamador morrer, sua obra há de se enterrar com ele. Arte é o que permanece, é uma metáfora da eternidade. Digo também que todo artista tem que guardar no seu discurso a herança de outro grande artista, enquanto experiência estética renovadora da forma e da linguagem, como nos ensina T.S. Eliot no ensaio “Tradition and the Individual Talent”. Vejo renovação e diálogo com a tradição no lirismo de Patativa, o mesmo não percebo em Miró da Muribeca. Isso que defendo também já foi escrito há muito tempo por Horácio na Epistola Ad Pisones. Horácio afirma que o poeta deve conhecer, laborar e renovar o que já existe, pois de outro modo “a montanha entrará em trabalho de parto e há de parir um camundongo.” Na modernidade, autores de excelência reafirmam essa mesma opinião, a exemplo de Baudelaire, Valéry e João Cabral.

Tanto eu quanto Bernardo Souto, Fábio Andrade, ou qualquer crítico/internauta, temos o direito legítimo de discordar publicamente não só da postura do seu grupo , mas também da exagerada promoção da sub-arte performática que produzem, que é só manifestação e espetáculo, para não repetir o termo “macaquices” empregado pelo crítico pernambucano Álisson da Hora, em artigo que contesta a qualidade do Urros Masculinos, publicado na revista Capitu e no blog Tango Argentino. Nada contra o macaco, mas acredito que somos seres mais evoluídos! Curioso, se o Facebook é um meio tão sem valor, porque aproveitou em sua carta textos colhidos nesta rede social? Por que se importou tanto com nossa opinião? Pode deixar que respondo: tanto o sr. quanto o seu grupo, assim como Miró da Muribeca, devem permanecer com as coroas que lhes imputaram para representarem nosso Estado, não é? O que menos existe na Freeporto e no Festival de Literatura Recifense hoje é qualidade e diversidade. Peço aos organizadores do A Letra e a Voz que reflitam sobre esta questão. Nesse último evento, a poesia foi pouquíssimo contemplada, só prosadores figuraram em cena. Nem o poeta e crítico Fábio Andradre, que foi premiado recentemente pela Fundarpe, foi convidado a participar do referido Festival como poeta. Isto está acontecendo, infelizmente, na casa de Bandeira, Carlos Pena Filho, Cardozo e João Cabral de Melo Neto. Acredito que essa Freeporto foi criada porque os seus idealizadores não suportam estar ob-cenos, ou seja, fora de cena. Quem está na Freeporto é porque não pode estar na Fliporto, não? Esta sim, funcionou este ano com muita organização, promovendo debates inteligentes e interativos, a exemplo do diálogo entre Nádia Gotlib e Moser, biógrafos da grande Clarice Lispector. Mário Hélio está de parabéns! Então saiba que, como Fábio Andrade, não sou avessa a eventos literários e sim à má qualidade do trabalho que andam fazendo por aqui. As performances que o seu grupo realiza são um desserviço à experiência estética e à sociedade! E por falar em experiência estética, trago à luz o seu parecer diagnóstico sobre meu exercício de percepção e compreensão da “perfomance artística”, realizada pelo Urros Masculinos, que o sr. descreve como algo que não tenho capacidade de fruir, nem entender:



“Esse é outro caso, de uma pessoa que viu e não entendeu nada. Ela deve ter ficado tão ‘consternada’ que nem sequer prestou atenção que o texto que o senhor leu (esse senhor sou eu, claro) foi um trecho de Literatura e Sociedade, de Antonio Candido. O trecho em questão era “A posição do artista”, página 34, em que se discutem, como você deve saber [Fábio Andrade], a posição do artista na sociedade, sua inserção e legitimação, os conceitos de arte coletiva, Volksgeist etc. Não deve ter prestado atenção, também, no trecho final deste texto, que foi inserido por mim e que ela, talvez, tivesse creditado a Candido (?). Eis o princípio do terrorismo semiótico: o factoide acadêmico como uma forma de desestabilizar o olhar acomodado, a pachorra, a repetição pura e simples de um discurso pela manutenção de realidades confortáveis nesse nosso mundo ‘pós-moderno’, tão fragmentário, que você [Fábio Andrade] tanto critica. Mas, enfim, o trecho que ‘inseri’ foi:[..]” [Wellington de Melo]



O desprezo que o sr. conferiu à minha capacidade de recepção da sua performance permite-me afirmar que é a própria encarnação do “complexo de gênio”, tão caro ao Romantismo do século XIX. Bem se vê que a sua tentativa ingênua e frustrada de ser um artista pós-moderno, não passa de uma diluição mal sucedida do discurso romântico, válido na época e hoje completamente obsoleto. Não creio que seja o Sousândrade do nosso tempo. Diz Affonso Romano de Sant’Anna, em “O Enigma Vazio", que a partir do século XIX aumentou o culto ao “herói excêntrico”. Ressalta que estar fora do centro, ser marginal, artista maldito, como Baudelaire, foi se tornando o ideal artístico-biográfico de muitos. Para Sant’Anna: “As vanguardas e as estéticas dominantes do século XX transformaram a excentricidade em paradigma, norma e cânone. Olhada a partir de hoje, a excentricidade, paradoxalmente, transformou-se no comportamento oficial, na ideologia artística dominante.” Duchamp foi um excêntrico e o sr. também o é, junto com os que integram o Urros Masculinos. Outro traço que os aproxima de Duchamp é o humorismo. O humor, segundo Sant’Anna, faz supor que o “ironista” tem uma superioridade moral sobre os demais. “ele também se considera à parte e acima dos outros fatos”. A frase de Duchamp “Sou totalmente um pseudo, essa é a minha característica. Nunca pude suportar a seriedade da vida” ilustra bem o seu comportamento e o do Urros Masculinos. Duchamp, como o sr., também tinha uma “pseudo- explicação para tudo”.Por isso ele foi considerado o pai da ideologia da pós-modernidade.



O seu “terrorista semiótico” (ao levar o texto de Antonio Candido, um acadêmico, para rua da Moeda), como descreveu acima, repetiu de modo bem menos inteligente o mesmo gesto que fez Duchamp ao levar o urinol para o museu. Que coisa tão nova, não?! Pois saiba que não foi Marcel Duchamp o primeiro a pôr o bigode na Monalisa. Teria sido Wellington de Melo? Donald Sasson diz que Duchamp não foi o inventor das paródias ao quadro de Da Vinci, e que, já em 1887, o ilustrador Sapeck (Eugène Bataille) fez para o livro “Le rire” um retrato da “Monalisa” com um cachimbo de onde saiam círculos de fumaça. Ao levar ao paroxismo a paródia de Sapeck, Duchamp ainda conseguiu interagir de modo questionador com a sua época, pondo em xeque a concepção canônica de arte e criação. Desse modo, afirmo que a minha indignação diante da sua performance foi fruto do pleno reconhecimento de estar diante de uma mera diluição da atitude excêntrica e do “kitsch”. Caro Wellington de Melo, sinto desapontá-lo, mas essa cômica, para não dizer trágica, experiência que me causou indignação está longe de ser um elogio. Do seu banquete estragado não quero degustação!






Sapeck, Monalisa com Cachimbo (1887)


Aqui me despeço dizendo que minhas reflexões são fruto da tentativa de melhoramos a qualidade da arte e o direito à diversidade nos eventos literários do nosso Estado. Pois, infelizmente, vi que os mesmos grupos transitam do Festival Literatura Recifense para a Freeporto. O que me permite afirmar, como disse o grande filósofo Olavo de Carvalho a respeito do A Letra e A Voz - Festival de Literatura Recifense no seu blog Talk Radio em 06/09/ 2010, que o critério de escolha dos “artistas” não se pauta na qualidade, mas nos conchavos e na “mútua puxação de saco”! Lembremos que a ética e a estética devem caminhar juntas, não sejamos, como prega o autor de “O Imbecil Coletivo”, promotores da “Apeirokalia” (falta de educação para o belo). Se existe uma “cena” literária, é salutar que todos contracenem ou contra-acenem, para além de egos e vaidades. Afirmo também que não mais tratarei desses assuntos de modo pessoal e informal. Estou disposta a travar diálogos apenas por meio da minha atividade crítica-ensaística. Como Yeats, digo que “da contenda de um homem contra outro homem, nasce a retórica. Da contenda do homem contra si mesmo, nasce a poesia.” Fiquemos com a poesia!




Jacineide Travassos

Recife, 9 de janeiro de 2010
***
LEIA TAMBÉM:


Carta de Wellington de Melo a Fábio Andrade:

http://notape.com.br/blog/?p=839


Carta de Fábio Andrade a Wellington de Melo:

http://primariastatuagens.blogspot.com/

13 comentários:

Wellington de Melo disse...

Favor colocar os créditos na foto de Felipe Ferreira. Rever também alguns desvios ortográficos, que podem comprometer a credibilidade do autor. Parabéns pelo texto. Concordo com tudo o que está escrito.

Cristhiano Aguiar disse...

Oi Jacineide! Olha, suas sugestões quanto ao Letra e a voz estão anotadas! Saiba que a organização de um festival é sempre algo polêmico e nunca é possível agradar a todos. O importante, contudo, é isso: cobrar do poder público ações culturais cada vez melhores, porém, como já conversamos, essas cobranças devem ser feitas de forma transparente e baseadas em argumentos, como estamos fazendo nesse exato momento.

Contudo, não posso deixar de discordar de você com relação à sua avaliação do festival no seguinte sentido: se, de fato, é preciso nos próximos anos mais mesas que possam discutir a poesia, inclusive voltando a debater grandes poetas da nossa literatura, como Alberto da Cunha Melo e Ângelo Monteiro, isto não significa que o festival não teve qualidade.

Os convidados do festival desenvolveram um debate de bom nível, como foi o caso de João Silvério Trevisan e Silviano Santiago, por exemplo. Na grade que debateu formação de leitores e bibliotecas, também tivemos um resultado bastante positivo.

Pontos altos também foram os mini-cursos sobre poesia contemporânea do professor Wilberth Salgueiro e o mini-curso sobre a relação entre literatura e carreira literária, ministrado por Flávio Carneiro. Abrimos também espaço para o lançamento do livro novo do professor Saulo Neiva, que investiga as novas expressões do épico na poesia contemporânea.

O A letra e a voz se pauta pela tentativa de dar espaço a todas às diversas expressões literárias da cidade. Houve espaço para o Urros, assim como para a Moinhos de Vento, editora criada por Fábio Andrade, e também para o Nós Pós, o Dremelgas Literárias e inclusive para a sua poesia, com a publicação da Eita!, lançada no festival (como você mesma fez questão de destacar no seu post). Lançamos, também, a Coletânea Antonio Maria de crônicas, que iniciou uma série que publicará diversos novos cronistas do estado.

Por fim, o festival foi encerrado com a Festa do livro, na qual abrimos um espaço gratuito para diversas pequenas editoras e livreiros independentes exporem suas publicações e realizarem recitais.

Outros poetas e grupos ficaram de fora da programação? Certamente! E é por isso que a curadoria do festival está sensível às críticas que o seu próprio público faz à programação.

Isso nos isenta das críticas? De modo algum! Há um real compromisso do A letra e a voz e da Fundação de Cultura em oferecer um festival de qualidade e estamos sempre procurando melhorar um evento que já se tornou parte fundamental do calendário cultural da cidade.

Grande abraço!

Jacineide Travassos disse...

Caro Wellington,

Seu gesto de humildade é louvável. Espero ter contribuído para o fortalecimemto da cultura pernambucana.

p.s.: Lapsos de digitação são corriqueiros até mesmo nos textos de Luiz Costa Lima. De qualquer maneira, grata por apontá-los.

Abraço cordial.

Jacineide Travassos

Jacineide Travassos disse...

Cristiano,

Em breve darei uma resposta ao seu comentário. Tenho, agora à tarde, um compromisso inadiável.



Abraço fraterno.

Jacineide Travassos disse...

Cristhiano,

É claro que o 'A Letra e a Voz' teve alguns pontos altos e reconheço que é quase impossível agradar a todos.

A principal falha do Festival, em minha opinião, foi conceder um espaço por demais exíguo aos poetas e à poesia. Creio que poetas/intelectuais do porte de Deborah Brennand, Esman Dias, Weydson Leal, Pietro Wagner, Ângelo Monteiro e Jairo Lima, por exemplo, não poderiam ser esquecidos... Senti falta, também, de uma mesa para debater a obra de César Leal, talvez o nosso maior poeta vivo.


Espero que este debate tenha contribuído para o fortalecimento da nossa cultura.



Abraço fraterno.

Cristhiano Aguiar disse...

Oi Jacineide: olha, só mais um esclarecimento. No caso de César Leal, no A letra e a voz de 2009, ele foi um dos homenageados do Festival, junto com Fernando Monteiro.

Durante a programação do festival, houve uma mesa na qual se discutiu a obra dele e a sua trajetória como intelectual e poeta.

Claro, isso não exclui outras iniciativas, dentro e fora do A letra e a voz, sobre César e/ou sobre os outros bons poetas que você citou.

No mesmo evento, aliás, fizemos a projeção gratuita do filme Geração 65.

Abraços!

Jacineide Travassos disse...

Olá, Cristhiano!

Publiquei o seu esclarecimento, mas o que está em pauta, sobretudo, é o Festival de 2010. Neste, irrefutavelmente, a poesia foi pouquíssimo contemplada, como você mesmo concordou. Desse modo, creio que houve mais erros que acertos.

A poesia e a crítica de César Leal são um manancial, sem contar o fato de ele ser o fundador do Mestrado em Teoria da Literatura da UFPE e um grande estudioso de grandes poetas como Dante, por exemplo. César também foi crítico e antologista de um poeta do quilate de Joaquim Cardozo (autor grande em poesia e dramaturgia que merece ser amplamente contemplado em nossos festivais).

Agradeço a gentileza do seu comentário e acredito que sempre devemos somar esforços para que a nossa cultura continue forte. A força de um povo está na sua arte!

Digo também que estou trabalhando no meu novo livro de poesia que, de fato, é muito mais importante para mim nesse momento. Referendo que eu, Micheliny Verunschk e Delmo Montenegro fomos contemplados pelo poeta e crítico Claudio Daniel (paulista) na antologia que organizou para Lumme Editor, cujo título é “Todo Começo é Involuntário – A Poesia Brasileira no Início do Século 21”. O lançamento será em São Paulo no dia 23 de março. Espero representar bem Pernambuco!

A discussão que empreendi em minha carta é muito mais ampla e trata-se apenas do início de um longo debate entre os escritores, gestores da cultura do Estado de PE e a sociedade! Todos devem responder aos meus questionamentos!

Abraço!

Bernardo Souto (atual administrador do 'Tango Argentino') disse...

Fui duramente hostilizado porque prefiro Esman Dias e Ângelo Monteiro a André Telles e Wellington de Melo. É lamentável... No Brasil, se o sujeito achar Alfredo Bosi mais inteligente que Gugu Liberato é chamado de fascista...

Jacineide Travassos disse...

Posto aqui o comentário que Fernando Monteiro fez à minha carta no "Facebook". F. Monteiro, como todos sabem, é um dos maiores intelectuais vivos do nosso Estado:


"Jacineide, li a sua resposta, e daqui da Suméria (é onde eu vivo, com a vantagem de estar a 4.000 dos "alegristas" locais),compreendo o que você, basicamente, repudia -- e saiba que concordo com a sua visão da literatura (com ênfase especial na poesia), claramente embasada em leituras transparentes do seu texto bem fundamentado etc.

PS: Esse pobre "clown" -- em nada chapliniano -- chamado "Miró", coitado, não é um poeta, conforme sabem até os que promovem o carnaval, passageiro, do elogio da sua "poesia", e mais: ele só pôde surgir na lamentável maré que os já antigos versos (1926) de William Butler Yeats deploram, como se tivessem sido escritos no Recife da primeira década do século 21:

FALTA CONVICÇÃO AOS MELHORES,
ENQUANTO OS PIORES ESTÃO CHEIOS
DE APAIXONADA INTENSIDADE.

São os versos finais de "Second Advent", merecidamente célebres!"

[Fernando Monteiro]

Alisson da Hora disse...

Jacineide, só posso lhe parabenizar pelo texto. Esclarecedor, que coloca muitos pingos nos is e que não me permite senão dizer que concordo com tudo que está escrito.

Jacineide Travassos disse...

Grata, Alisson! Nossos textos se completam! Abraço fraterno.

Diogo de Oliveira Reis disse...

Jacineide, só não concordo inteiramente com o seu texto, porque certos filósofos como Olavo de Carvalho não me parecem sérios e dão a impressão de viverem num clima de polarização ideológica da década de 1930. Prefiro alguém como Alfredo Bosi ou mesmo a Marilena Chauí, com todos os seus equívocos de militante de esquerda. De qualquer maneira, acredito que o seu texto e os de Bernardo Souto elevam a discussão.

Se vocês polemizam, são porque têm uma visão bastante fundamentada do fazer literário e, seguindo a trilha de Luiz Costa Lima,acreditam que um texto tem que ter uma certa espessura de linguagem para poder ser considerado literatura.

Em literatura, não se deve polemizar apenas para saber qual é o limite, ou apenas pelo gosto da transgressão, assim fazem muitos jornalistas e pseudo-gênios, com o único objetivo de vender jornal ou chamar a atenção.

Se alguém pretende defender a poesia de Miró da Muribeca ou qualquer tipo de “arte” performática, deve ter argumentos capazes de ir além da transgressão vazia. Ninguém vai me convencer que uma frase como "merece um tiro quem inventou a bala" é grande poesia.Não é.

Outra coisa, a poesia mais rudimentar ou pelo menos o uso metafórico da linguagem encontra-se em todo canto. Estive pensando sobre o fenômeno Miró, e me dei conta disso. Um sujeito vai pegar um ônibus, e uma mulher na parada diz: "esse calor está de derreter". Tem-se aí uma metáfora, mas nem por isso aquela que proferiu a frase pode ser considerada uma poetisa. Falta a ela o mínimo de juízo crítico para saber quais metáforas são bem construídas e quais não.

Vendo os poemas do Miró, percebi que falta a ele o mínimo de técnica para que possamos considerá-lo poeta. Miró não tem nem a técnica de muitos poetas populares, falo daqueles que sabiam construir sextilhas muito bem elaboradas, e nem aquela exigida pelo verso livre. É essa falta de uma criticidade mínima, na percepção do fenômeno poético, que deve-se levar em conta na hora de reconhecer ou não a arte do poeta marginal. Miró não tem o mínimo que se poderia exigir. Isso o faz acreditar ser poesia, versos que mais parecem filosofia de botequim, como o seguinte: "E a mim só me cabe chutar a lata / pois é dentro da lata que encontramos tudo aquilo que não é lata".

Para quem tiver alguma dúvida sobre a importância da poesia do Miró da Muribeca, basta vez a complacência com que Gilberto Gil escuta seus maus versos num dos seus shows no Recife. Gil está sempre rindo, falando de futebol antes da encenação performática, e corrigindo o tom exagerado com que o poeta "declama" seus versos. O vídeo é ilustrativo, basta acessar:
http://www.youtube.com/watch?v=q7PWgfc4d6I.

Enfim, gostaria de dizer que parabenizo Jacineide pelo seu texto e dizer que, com ele, saímos do vale tudo na poesia e entramos na polêmica que realmente interessa. É preciso que alguém defenda certos limites no fazer poético, para que este não vire uma panacéia qualquer.

Quanto aos transgressores da tradição e do cânone literário, é preciso que eles saibam que é justo questionar certos limites – principalmente aqueles que dividem a cultura em erudita, popular e massiva – mas que para isso é preciso bons argumentos e algum critério. Quando isto falta, é importante que surjam críticos que não têm medo de monturos ou vespeiros, como Jacineide Travassos e Bernardo Souto, para questionarem o excesso de leviandade daqueles que acham que basta que exista transgressão e choque do grande público para que algo seja considerado poesia. Não é preciso de nenhum raciocínio brilhante, para saber que, às vezes, o grande público tem toda razão em chocar-se, e em não compreender aquilo que não pode ser compreendido, porque nunca buscou, verdadeiramente, ou de forma mais profunda, algum sentido.

Bernardo Souto (atual administrador do 'Tango Argentino') disse...

Diogo, ficamos muito gratos pelos elogios.

Quanto ao Olavo de Carvalho, creio que se trata de um dos homens mais sérios e inteligentes do Brasil. Por favor, leia "O Jardim das Aflições" e volte aqui para comentar. Você perceberá que a argumentação de Olavo é bastante consistente. Muitos o condenam pelo uso do 'sermo vulgaris', o que é, diga-se de passagem, uma enorme injustiva. A intenção dele é ser mais comunicativo e cativante. 'Educare et delectare', eis o lema de Horácio e do autor de "O imbecil coletivo".


Um abraço.