Sexta-feira

A fundação do ser mediante a poesia



prefácio ao livro “Revisitação da estética barroca na poesia religiosa de Ângelo Monteiro”

por Bernardo Souto

Em meio a um tempo tomado pelas trevas da vulgaridade, tempo em que a busca hedonística de prazeres efêmeros e o culto irracional ao relativismo estético imperam, a poesia surge como um Sol que, a um só tempo, ilumina e norteia o destino dos homens. É por isso que devemos revisitar a Lírica de Ângelo Monteiro, poeta que, graças à sua sólida formação humanística e ao seu refinado senso estético, recusa-se a cultuar o “ramerrão cotidiano, em cujo horizonte só cabem as ordens do dia, os editais e proclamas da mediocridade dominante” (MONTEIRO, 2004, 61).

Ângelo Monteiro não se preocupa em ser moderno, pois, como Drummond, sabe-se eterno¹ . Sabe que “o novo na arte não tem que ser sempre um escândalo ou uma ruptura; pode ser – e na maioria das vezes é – o resultado de sutil exploração e aprofundamento temático e estilístico” (GULLAR, 2006, p. 13). Daí ter optado, muitas vezes, pela forma tersa e sintética do soneto que, a despeito de ter sido condenada pelos sectários de Marinetti, Tristan Tzara et caterva, continua sendo a maneira mais eficaz de exprimir uma espécie de poesia que T.S. Eliot chamava de sensuous thought poetry, cuja principal característica é a transfiguração estético-verbal de uma visão de mundo (na acepção diltheyana do termo, isto é, no sentido de Weltanschauung).

A concepção de monteiriana de poesia não se distancia muito da de Fernando Pessoa – poeta que pensava o que sentia e sentia o que pensava ("O que em mim sente está pensando") –, para quem poesia é “música que se faz com idéias”. Por ser, antes de qualquer coisa, música do logos, a poesia é indissociável do mythos, o que lhe garante sua função de “fundadora do Ser”, como oportunamente percebeu Martin Heidegger. É neste sentido que a obra poética de Ângelo Monteiro pode ser considerada uma Gnose, visto que tenta perscrutar “o que pensado foi e logo atinge/ distância superior ao pensamento”² :

A poesia de Ângelo Monteiro é, indiscutivelmente, uma poesia difícil! Misteriosa, sibililina, ela nos lembra algo semelhante ao que os metafísicos ingleses produziram. Quem já leu Donne e Blake entenderá o que estou pretendendo dizer. Mística, impregnada de religiosidade, tocando muitas vezes as fímbrias do sobrenatural, mergulhando outras vezes numa atmosfera que, por estar carregada de extrema luminosidade, nos cega e nos aterroriza. Associemos, portanto, o mistério dos poetas metafísicos ingleses ao misticismo poético de São João da Cruz (Noite Escura e Subida do Monte Carmelo) e de Santa Tereza, a Reformadora (Os sete Castelos da Alma) e teremos a poesia de Ângelo Monteiro (apud MONTEIRO, 2008, p. 19-20).

Embora estas sejam, muito provavelmente, algumas das principais fontes da poética de Ângelo Monteiro (acrescente-se à lista supracitada os sonetos metafísicos de Antero, os poemas místicos de Alphonsus de Guimaraens, a poesia ocultista de Fernando Pessoa – o ortônimo – e a lírica cristã de Jorge de Lima etc), tão singular e complexa produção poética transcende toda e qualquer tentativa de exegese que se pretenda definitiva. É que em poetas da estirpe de Ângelo Monteiro, aquela concepção novalisiana de que a poesia só pode ser explicada poeticamente parece ser, de fato, a única maneira de se aproximar da esfinge. Assim também o entendeu o próprio poeta, ao considerar o mistério (entendido como dimensão translógica da existência) a “lei suprema” da arte poética:

DA INAUGURAÇÃO DO POEMA

Falar não basta a quem nasceu com o fado
de espalhar a beleza e o dom de amar.
A palavra só vale, se gerar
alguma coisa além do formulado.

De harmônica leveza no traçado,
que seja a frase aérea e linear.
Sem que se deixe nunca de lembrar
que a ordenação não peque pelo enfado.

Lúcido, quanto à forma; e quanto à essência,
que determina a forma do poema,
é mister se elabore em chão de ausência.

Colhendo o inesperado e o pressentido:
pois foi sempre do verso lei suprema
de que só no mistério tem sentido.

(Ângelo Monteiro)

Antonin Artaud, num momento de rara inspiração, parece ter vislumbrado esse mistério de que nos fala Monteiro: “A arte não é a reflexão da vida, mas a vida é a reflexão de um princípio transcendente com o qual a arte nos volta a pôr em contato” (apud BLAKE, 1984, p. 37). E a reflexão desse princípio transcendente em Ângelo Monteiro se dá, como já foi dito, mediante uma transfiguração estético-verbal de sua weltanschauung, criando a Gnose (que é sua obra poética). Tal Gnose só pode ser entendida parcialmente e, mesmo assim, através da linguagem simbólica da arte (bom exemplo disso é a poesia de São João da Cruz). Há, portanto, uma dimensão ontológica algo kierkegaardiana na poesia de Ângelo Monteiro, dimensão esta sintetizada de maneira exemplar por Jean-Paul Sartre:

A vida subjetiva, na própria medida em que é vivida, não pode jamais ser objeto de um saber, ela escapa ao conhecimento... Essa interioridade que pretende afirmar-se contra toda filosofia, na sua estreiteza e profundidade infinita (...), eis o que Kierkegaard chamou de existência (SARTRE,1979, p.8, grifo nosso).

A existência, portanto, só pode ser compreendida através de algo que escapa ao conhecimento, e esse algo é precisamente a Fé. Nesse aspecto, “a lei suprema de que [o verso] só no mistério tem sentido” (para usar as palavras do próprio poeta) nos faz lembrar o misterioso silêncio prenhe de sentido de Abraão a caminho do Monte Moriá, que nos é recontado, não por acaso, pelo próprio Søren Kierkegaard, no livro Temor e Tremor. A poesia monteiriana, nessa perspectiva, seria a própria "voz do inefável", para utilizarmos a feliz expressão de Goethe. Essa concepção de que a razão é insuficiente para abarcar toda a complexidade da existência é bem ilustrada no soneto abaixo, no qual “sol” pode ser entendido como uma metáfora do racionalismo:

Em nosso sol se instala o Inimigo
se afirma em cada passo que o renega
em nossas águas seu negror navega
se esconde em nossa vinha e em nosso trigo.

Ao próprio Amor domina o Inimigo
ao torná-lo mais dócil em paixão cega.
A nossa inteira vida a ele se apega
e contra ele é vão qualquer abrigo.

Das nossas próprias ânsias se sustenta
dos nossos próprios gritos se arrebata
e sua teia é tão longa quanto lenta.

Sempre belo se veste de gerânios
e jovem como a luz - que não tem data
- nos sepulta nos seus subterrâneos.

(Ângelo Monteiro)


Muito teríamos ainda a dizer sobre a poesia de Ângelo Monteiro. Mas tal incumbência caberá a Ariadne Quintella, jornalista especializada em Literatura Brasileira e Arte, que escreveu este meritório livro ao qual tenho a satisfação de prefaciar.

O estudo de Quintella, como o próprio título nos faz antever, versa sobre a presença da estética barroca na poesia de Ângelo Monteiro, o mais ibérico dos poetas brasileiros do nosso tempo. Embora tenha feito opção por um recorte sincrônico – o que, sem dúvida, foi o mais sábio –, Quintella, por ser pesquisadora de fôlego, ao investigar as ressonâncias do barroquismo na lírica do autor de O Exílo de Babel, acabou traçando, também, um vasto e rico panorama das manifestações artísticas do barroco no Brasil. Este livro, portanto, além de lançar luz sobre aspectos insuspeitados da poética de Ângelo Monteiro – como o seu parentesco estético-estilístico com John Donne, o mais significativo representante dos metaphysical poets –, nos ajuda a compreender a importância do legado jesuítico para a cultura brasileira.

Em tempos de completo desacerto de valores, como os nossos, livros como os de Ariadne Quintella nos fazem sonhar com o fim do divórcio entre estética e ética, divórcio que tantos prejuízos trouxe (e continua a trazer) à humanidade.


NOTAS
1 Penso nos famosos versos de Drummond : "Cansei de ser moderno, agora quero ser eterno."
2 Versos do poema "A Máquina do Mundo", de Carlos Drummond de Andrade
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 2001.
BLAKE, W. Escritos de William Blake. Tradução de Alberto Marsicano e Regina de B. Carvalho. Porto Alegre: L & PM, 1984.
GULLAR, Ferreira. Sobre arte, Sobre poesia (Uma luz do chão). Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.
KIERKEGAARD, Søren. “Vida e obra”. In____ Kierkegaard [Coleção Pensadores]. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
MONTEIRO, Ângelo. Escolha e Sobrevivência. São Paulo: É Realizações, 2004.
___________.Todas as Coisas têm Língua. Recife: CEPE, 2008.

PESSOA, Fernando. Obra poética (volume único). Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.
SARTRE, Jean-Paul . “Vida e obra”. In____ Kierkegaard [Coleção Pensadores]. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

2 comentários:

marciomoody disse...

Go, Bernardo!
Não sei se você lembra de mim mas estamos aí! hehehe
Visito o blog de quando em vez e sempre acho interessante!
Abraços

Marco Dantas

Bernardo disse...

Obrigado, Marco! Cadê você?!Precisamos conversar!

Abraço!