Sábado

O reino de Branchu



por Ângelo Monteiro

Não foi nem Sócrates, nem Platão, nem Aristóteles os primeiros filósofos de que ouvi falar já adolescente. Pois em menino, por não conhecer a infância, ou vivê-la, de maneira retardada, algum tempo depois, não tive meus primeiros contatos com Branchu. Somente muito mais tarde, vim a perceber que, ao silenciarem seu nome para dar lugar a outros mais prestigiosos ou eruditos, era em Branchu que a maioria dos nossos mestres concentrava seu pensamento, e não naqueles. Ao escrever o Tratado da lavação da burra há três décadas, ainda desconhecia os poderes de Branchu. E um desses poderes consiste em agir, por baixo do pano, exaltando o profundo em público para curtir o raso no privado. Daí Branchu ser o pensador nacional por excelência quando, ao fazer face ao existencialismo de um Sartre, por exemplo, substitui sua velha náusea por um urinol tomado como seu símbolo mais completo ao realizar, no dia a dia, a autoprojeção de um Duchamp que, entre nós, virou o trono do pensamento nacional. Nenhuma seriedade, como vemos, é possível no reino de Branchu: seu riso, mesmo na pior decadência, é invencível, e até as maiores tragédias costumam terminar em deboche. Sua voz se estende dos palcos e estádios aos púlpitos e cátedras: e vai de um primata como Gabriel, o Pensador, inculcado aos pobres alunos de literatura nas escolas de nível médio a um ex-governante que, sem nunca ter lido sequer um almanaque, se vê agraciado com títulos de doutor honoris causa pelas maiores universidades do mundo. De igual modo quando alguém, que desconhece qualquer noção de literatura, se transforma de uma hora para outra em celebridade, vemos aí o dedo de Branchu. Ou quando uma Fafá de Belém é convidada por autoridades católicas para cantar uma simples Ave-Maria em cerimônia religiosa de comemoração de quase 130 anos de uma diocese, como se todos os corais do mundo estivessem mortos, é a voz de Branchu que se expressa por meio dela. E ao olharmos, com perplexidade, um Roberto Carlos, de quipá na cabeça, se curvar em oração, segundo a mídia, por todos nós, diante do Muro das Lamentações, na Terra Santa, é para lamentar ou louvar a influência de Branchu? Se nas mais altas esferas seu nome não é pronunciado às claras é apenas por desnecessária cautela ou jogo de pura malandragem. Portanto para Branchu chegar aos céus é suficiente colocarmos no trono de São Pedro um papa brasileiro. E, então, haveremos de ver que se Roma não se fez num dia, bastará esse fato para ela se acabar de uma vez por todas. Embora não haja de faltar, para todo o sempre, um reino para Branchu...


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